23 de outubro de 2008

Inimigos

Na vida,existem paradoxos interessantes mas ao mesmo tempo estúpidos. Veja-se por exemplo, os amigos. É verdade que eles existem, é verdade que na sua grande maioria tratam-se de seres humanos exactamente idênticos a nós, salvo as excepções que comportam os seres vivos, que não são humanóides, e sim animais, mas não deixa de ser menos verdade que entre amigos, a dita, amizade, acaba por se tornar uma coisa extremamente complexa e por vezes pouco perceptível. Ora vejamos, competimos diariamente por tudo, desde a atenção dos outros amigos, a atenção das raparigas que fazem parte desse mesmo grupo de amigos, competimos por empregos, por lugares nas universidades, por férias em sítios melhores e menos melhores, por roupas, mais ou menos interessantes, cortes de cabelo, mais tarde, passamos a competir por salários, por casas, pela localização dessas mesmas casas, pela festa de inauguração das casas, pela festa do casamento, pela igreja onde casamos, pelo aparato do copo de água, pela bebedeira que se apanha, pelo carro que compramos, pelos filhos que temos, pelos colégios onde os matriculamos, pelos desportos em que os inscrevemos, novamente pelas férias que fazemos, pelas fotografias que tiramos, pela televisão que compramos, pelas prendas que oferecemos, pela qualidade dos jantares que damos...
No fundo, passamos uma vida inteira em comparações e competições estupidificantes, com aqueles que consideramos ser os nossos amigos, os nossos melhores amigos, com quem partilhamos segredos, confidências, traições, tristezas, alegrias, frustrações, dores, incertezas.. tudo. Acabamos por estar a partilhar e a expor todas estas coisas, aos nossos INIMIGOS. A amizade é ou não é uma coisa subjectiva?
Amigos, pensem nisto, mas acima de tudo, pensem bem naqueles que escolhem como amigos, e não os vejam nunca como inimigos, este é talvez o segredo de manter boas e longas amizades, neste mundo de inveja.
Porque acima de tudo, o que acontece é que o ser humano, teme sempre, aquilo que não tem a capacidade de compreender, e ao temer, goza, ridiculariza, troça, rebaixa, e porquê? Porque o homem, é burro, é estúpido, e muitas vezes não tem a capacidade de melhorar. Se tens amigos assim, não te aflijas, não és o único e vais encontrar mais "amigos" destes na tua vida. Dorme descansado, a tua vida vale mais com a amizade, tens é de saber dar-lhe o seu verdadeiro e real valor. Os amigos que tens hoje em dia, podem não ser eternos, mas são teus amigos, podem roubar-te a casa, o trabalho, a mulher, o carro, e tudo mais, mas estão a teu lado quando precisas, por isso não tenhas medo, mesmo com os teus amigos, usa preservativo.

25 de setembro de 2008

Metrópole

A minha cidade não é mais a mesma cidade.
A minha cidade é cada vez mais um aglomerado de vontades contraditórias que se empilham em cima dos desejos de quem a viu nascer, crescer, há séculos atrás e sobretudo de quem nela nasceu e cresceu e que agora, como eu, tem uma enorme dificuldade em identificar-se com ela. É realmente triste quando não nos conseguimos identificar com uma coisa que sempre tivemos como nossa, como parte pertencente e integrante de nós, sendo que nós, somos obviamente, parte integrante dela. São as pessoas que constroem as várias Lisboas, são as pessoas que destroem as mesmas Lisboas. Pessoas, mais uma vez, o mal é irremediavelmente o mesmo e advém sempre da mesma fonte. Pessoas e vontades, conflitos e verdades. Pessoa, esse sim, fazia falta a Lisboa.
Dorme bem Lisboa, quando acordares acorda-me também a mim. Estarei sentado, como é costume, num banco de um teu jardim.

23 de setembro de 2008

Sensações

Abandono o transporte, sinto-me pesado, frio, amargurado, apático e amorfo, no fundo sei que estou indiferente a tudo o que à minha volta acontece, acções, palavras, movimentos, pessoas também, a praticamente tudo.
Lentamente vou caminhando, atordoado por uma inexplicável inércia, que me obriga a caminhar muito devagar, enquanto tento perceber, porque razão estou eu a caminhar se na realidade o meu corpo não quer andar. Encontro facilmente o meu inimigo e adversário natural, o meu pensamento, o meu cérebro. O que posso eu fazer para o contrariar?? Resposta óbvia, NADA!!!
Dobro a esquina e encosto-me à parede, tentando descansar, sinto-me exausto ao fim de cinco minutos de caminhada, falta-me o ar, circula lentamente e mais pesado do que eu. Subitamente, aproxima-se de mim um estranho ser caminhando a alta velocidade, detém-se à minha frente e pergunta-me as horas, cabisbaixo, fingo não perceber uma única palavra daquilo que aquele velocista me diz, como se de facto ele estivesse a falar um qualquer idioma que nunca antes tivesse eu escutado, mas o homem, não contente com ausência completa de uma simples resposta, resolve retorquir a pergunta, desta vez, acompanhada de um pequeno mas incomodativo toque no braço esquerdo. Desculpa, tem horas que me diga por favor? Tamanha educação, mas no entanto não me apetecia sequer abrir os olhos, mas eis que o meu inimigo resolve tomar o controlo da situação. Subitamente os meus ouvidos ouvem lá longe: São 21h30, exactamente, era eu a responder, contra a minha própria vontade, inicia-se então um conflito utópico, capaz de durar por horas, ou mesmo dias, dependendo da dimensão da minha apatia e da minha falta de vontade, despoletadas pela tristeza que me cola os pés ao alcatrão.
É tarde, mas não me apetece mexer para lado algum. Dou-me por vencido e deixo que o meu inimigo me conduza, seja lá para onde for que o traste queira ir, não tenho outro remédio senão baixar os braços, e simplesmente caminhar na direcção por ele tomada, vou a contragosto, mas vou.
Boa noite, dorme bem Lisboa, agora que de ti me afasto, ao menos diz-me se gostaste da minha não companhia.
Aquele beijo para ti, limpa-te, estás tão suja, essa cor não te favorece.