Ainda parece tão... fresco, se é que há alguma frescura nisto tudo...
Ainda soa tão... estranho.
Ainda... Ainda Belé, ainda.
Hoje, 15 de Setembro de 2013, dez quinzes de Setembro depois do fatídico e ainda hoje incompreensível 15 de Setembro de 2003, dia esse que marcou a vida dos teus familiares, amigos, e outros que nada disso eram, mas que ficaram igualmente atónitos marcados pela absurda e violenta natureza do acidente que te "roubou" a vida e te "roubou"à vida, aqui estou para te contar algumas das coisas que se passaram durante estes "nossos" 10 anos.
Provavelmente estás confuso e a dizer que já escrevi uma "merda" destas o ano passado, ou lá o que foi.
Tens toda a razão, mas este ano é necessário uma actualização.
Dizia eu, qual velho que não se recorda mais dos pontos onde interrompe as histórias, que entretanto já tanto se passou por estas vida, pelas nossas vidas.
Já houve casamentos e ajuntamentos, separações e confusões, mais casamentos, baptizados e outras tantas celebrações, e agora, festejamos e apadrinhamos os nascimentos de lindos e pequeninos rebentos que ajudarão a perpetuar memórias do que fomos, do que vimos, do que fizemos e de tudo aquilo que conseguimos e não deixaremos nunca de lembrar, com os olhos postos em tudo o que almejamos alcançar.
Tens visto tudo, bem sei, mas ao mesmo tempo acho que te faz falta ouvir-nos de quando em vez, acho que te sabe bem que te contemos as histórias da vida de quem anda "cá por baixo".
Neste mesmo dia, há 1 ano atrás, houve quem tivesse tentado falar contigo e se deparasse... com a tua ausência, física, daquela que havia sido a tua morada nesses últimos 9 anos!
Daqui podia nascer um enredo de filme, uma narrativa prodigiosa e ficcional em torno de um qualquer milagre de ressurreição, ao bom estilo dos romances que vendem milhões em todo o planeta e que sem qualquer sombra de dúvida faria O próprio Cristo corar de vergonha, embaraçado por pensar que havia conseguido em 3 dias, o que tu farias em 9 anos, exactamente 9 anos depois do dia que assinalou uma tristeza incomparável na vida de muitos de nós, do dia em que dos céus desceram as escadas que te levaram e em que se abateu sobre nós uma tormenta nunca antes imaginável e sobretudo a todos os títulos incomparável.
Ora junta-lhe mais um à conta.
Mas não, não houve milagre para celebrar, somente da minha cabeça idiota podiam ter saído estas ideias estapafúrdias.
(Ainda hoje não consigo aceitar que tenhas morrido assim! Revolve-me as entranhas, escorrem-me lágrimas furiosas pelo rosto precipitando-se para o queixo de onde saltam desamparadas para o nada. Porra que continua a ser inconcebível que alguém se possa volatilizar assim...)
Há 1 ano descobrimos que tinham dado o teu terreno a outro(a) pessoa que estava a precisar de descansar um pouco. Acharam que estava na hora de mudares de ares e de ires pregar para outra freguesia.
Agora sim. Foi de vez.
Puseram-te, fecharam-te numa caixa.
Coitados, acham eles que te podem algum dia engavetar, triste sorte a de quem te enterrou na morte, julgando que te estava de facto a enterrar.
Continuas vivo, bem vivo, presente e bem presente, em tudo o que é mente da gente que te acompanhou.
Miguel Ângelo Simões Henriques.
Miguel.
Belé.
Bebé.
Cara de bebé.
Vneno
Hups
Lip
Troll
Narigão
Narigudo.
Pencudo.
Sei lá mais o quê.
Um grande, grande amigo.
Um dos melhores e mais intensos amigos que tive o prazer de ter na minha vida.
Um dos mais eloquentes e ao mesmo tempo inconscientes seres humanos que cruzou o meu caminho.
Fizeste da amizade uma experiência visceral e transcendente.
O tempo ajuda a entender e maturar as coisas no pensamento, ajuda a tornar mais dócil o sofrimento, ajuda... ajuda! O tempo tudo cura e faz a cama à dor, dá-lhe de beber quando precisa.
Nunca esquecerei o teu olhar. O bom e o outro... o fodido. De raiva. De revolta. De orgulho. De peito feito e bolso vazio, de atrofiar o atrofio.
Vivemos tanto e tínhamos tanto para viver, no fundo é essa a causa de muita da dor, acho que é essa a causa maior da dor perpetuada no tempo e que teima em não passar!
Tínhamos tanto para viver, tínhamos tanta vontade de o fazer.
Ia gostar de te ver agora, como tio... Dos bebés que entretanto chegaram.
O Rodrigo, a Joana, o Salvador, o Álvaro, a Teresa... é uma autêntica legião... =)
E sei que tu ias adorar ser tio, tê-los ao colo, nos braços!
Estou desde manhã a pensar para onde é que te terão levado? Onde te terão eles engavetado?
Sabes, hoje trabalho num canal de televisão, no mesmo que me confirmou aos olhos a inenarrável tragédia que te levou, no mesmo que me deu a certeza de que não estava tudo bêbado e a gozar com a minha cara.
Como diz o Miguel Esteves Cardoso, "Como é linda a puta da vida", irónico o desplante e a ousadia da própria ironia.
Por isso te digo que esse dia, o dia 15, 15 de Setembro de 2003 foi na verdade um dos dias mais tenebrosos, mais assustadoramente terríveis da minha vida, um dos dias mais surdos, cegos, brutos, dolorosos, incompreensíveis, esgotantes e desprezíveis que tive a infelicidade de viver.
Mas vivi-o, eu e todos os que te conheceram e que de cuja vida fizeste parte.
Obrigado Miguel, por teres feito parte da minha vida.
Sabes, não penso em ti todos os dias, não penso e digo-te isto com franqueza.
E não quererias que assim o fosse, que isso sei-o bem.
Quererias que todos nós prosseguíssemos com a nossa vida, e foi assim que o fizemos.
Talvez tenha para isso contribuído o facto de ter saído de Stº António dos Cavaleiros, talvez tenha tido esse um secreto desejo meu, mas sabes, quando penso, sorri! Sorrio, recordo, relembro, desmancho-me, aprendo e esfrego as mãos, respiro fundo, franzo a testa e arqueio as sobrancelhas... Pensando e desejando que o resto da vida seja uma festa.
Isto saiu no dia do teu funeral.
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/portugal/descarga-mata-vneno
Como esquecer?
Durante anos fugi da estação do Rato.
Durante anos...
Depois, um dia... fui lá, ver, falar contigo.
Vi de perto e soube bem.
Até um dia, te digo eu também.
Não sei se me perderei na auto-estrada para onde estás, não sei se de facto ainda... estás, mas olha, enquanto o tempo me permitir escrever e articular a simplicidade do pensar, em palavras que não se atropelem com a ânsia de te segredar um abraço, não me faltarão forças para falar contigo e para te levar comigo na durabilidade efémera da vida.
Um abraço meu amigo, um abraço.
Um maior do que aquele que te enviei há 1 ano atrás!
Hoje passam 10 anos Miguel e nem sabes o quanto isso torna tudo isto... estranho!
Lembro-me de ti como miúdo e tento imaginar como terias tu crescido?
Como estaria o teu cabelo?
Que carro terias tu?
Onde trabalharias agora?
E a vida toda da parte de fora.
Conta-se e fala-se sobre ti.
Eu falarei por certo aos meus filhos.
Do amigo do pai que se tornou estrela, lá longe e bem alto no alto distante do céu.
Das doideiras que ele fazia do como a pouco ou ninguém ouvia, e dos olhos que brilhavam com as mais inusitadas coisas.
Mas contar-lhes-ei também que fazias tudo à tua maneira, seguindo as tuas crenças, convicções, fossem estas certas ou totalmente descabidas e desconexas.
Porque sempre foste um fantasista, um crente, alguém que acreditava que o fim justificava sempre os meios que se utilizassem para lá chegar, fosse onde quer que fosse que isso acabasse por te levar! E levou, como o vento se encarrega de levar as palavras.
E agora?
Não te traz de volta pois não?
Já esperámos tanto tempo e não acontece nada. Já esperámos nos dias, nas noites e nas madrugadas, já deitámos vezes sem conta as esperanças nas madrugadas e ainda assim... nada! Absolutamente nada!
Foda-se, para onde foste tu afinal?
10 anos é muito tempo e é tempo nenhum, 10 anos é mais que tempo para se perguntar ao tempo se te traz ou te deixar ficar onde estás.
Seja como for, que seja em bom, em bem, para ti e não mais para mais ninguém!
De todos para ti.
E eu que tenho pensado em tanta, mas tanta coisa nos últimos dias, que tenho olhado tantas, mas tantas vezes para as minhas duas mãos separadas e vazias, pergunto-me se em algum destes acelerados dias, te vou poder perguntar tudo o que nunca te perguntei.
A esta, não quero ou espero resposta, apenas quero que saibas que sim.
Esquece...
Não esqueço.
Ninguém te esquece!
E aos olhos acresce a comoção, a lágrima e a saudade.
O fado do português é triste e sincero.
A dor é melodiosa e bem regada.
Descansa em paz irmão.
Tenho a certeza que há muito que é teu o eterno e secreto "reino dos céus".
Deixa-te estar sossegado, que no final de contas a cada um de nós, está o lugar reservado para o dia dessa monumental reunião.
Fica perto, que nós gostamos de te manter assim.
Um abraço eterno,
Sempre teu,
Martim
15 de setembro de 2013
4 de setembro de 2013
A ferro e fogo
São 14h30 e preparo-me para ir almoçar.
Mais um dia que não um dia como todos os outros.
Liguei a televisão para saber como vai o “meu” país, como vai o mundo em que vivo, na esperança de estar um pouco melhor do que quando me deitei há umas horas.
Rapidamente descubro que não, que está pior, que continuam a querer acabar com tudo isto, que continuam a querer pegar fogo a tudo o que é verde, que morreu mais um bombeiro.
Os bombeiros deviam ter vida eterna, ou mil vidas, como nos jogos de computador.
Deviam cair e levantar-se, deviam ter super-poderes capazes de, em situações extremas, apagar as chamas que os cercam com um sopro intenso e gelado, como tinha o super-homem, ou então serem capazes de voar para fora do local de perigo, resgatar colegas em apuros, subir alto nos céus para ver a direcção do fogo, encontrar a lagoa, a boca-de-incêndio mais próxima mas não, não podem, não têm, não voam e não sopram com a frieza gélida dos polos.
Têm, tinham pouco mais de 20 anos, todos eles.
E aqui entra a parte em que digo que todos eles, sem excepção, são, eram bombeiros voluntários, que vão, foram combater no pior dos cenários de guerra, o inferno escaldante e tantas vezes criminoso de um incêndio de apetite voraz e insaciável, que se alastra a uma velocidade vertiginosa e descontrolada contra a qual é impossível combater de forma justa e capaz.
E há alguma possibilidade de se falar de justiça quando um bombeiro, voluntário, foi combater o fogo para longe de sua casa, da sua família, dos amigos, da escola, da vida que tem, tinha e que deixou para salvar casas de pessoas que nunca viu, com quem nunca falou, para se colocar entre os bens dos outros e a violência atroz de um gigante esfomeado e sem estômago nem maneiras, que destrói tudo à sua passagem sem sequer olhar para trás.
Miranda do Douro, Covilhã, Tondela e Caramulo.
São já, foram já cinco os “soldados da paz” caçados pelo monstro.
Não deixa de ser curioso que ser bombeiro seja uma das profissões de sonho do imaginário dos meninos pequeninos, juntamente com os astronautas, os pilotos de carros e os jogadores de futebol.
Será que o ser humano tem todo ele uma inata atracção pelo fogo?
Quando somos meninos pequeninos não temos a noção das políticas e da falta delas, não fazemos ideia que existem matas sujas e muito menos nos passa pela “pinha” que existem animais capazes de pegar fogo a matas, florestas, casas, carros, só porque sim, só porque estão muito tristes e revoltados com a vida, porque foram traídos, porque se “entornam” dia sim, dia sim, para esquecer que não prestam, que são más pessoas, má rês, má gente, que há muito se desviaram do caminho que conduz à meritória e honorífica possibilidade de ser designado como ser humano, que a única coisa em que pensam reside no mal que possam ser capazes de fazer, da dor que consigam infligir, ou do terror que almejam causar.
Mentes pérfidas.
Soldados da destruição e do horror sustentados no mais puro egoísmo digno de uma mente retorcida e solitária.
Cátia Pereira Dias, Carregal do Sal.
Bernardo Figueiredo, Estoril.
Ana Rita Pereira, Alcabideche.
António Nuno Ferreira, Miranda do Douro.
Pedro Rodrigues, Covilhã.
Ficam-lhes os nomes, as façanhas, as saudades e a dor nas entranhas dos que os vêem, viram partir.
Num país ligado às máquinas, que apoio têm estes homens?
Que apoio vão ter as famílias destes meninos e meninas que não quiseram ser astronautas, nem jogadores de futebol, antes preferiram alistar-se numa corporação de bombeiros para irem morrer longe de casa no mês em que o país vai de férias.
Novos demais para morrerem às mãos de um assassino impiedoso que não olha nos olhos nem olha para o inestimável rastro de destruição e dor que vai semeando à sua passagem.
Os bombeiros continuam a pedir esmolas nos semáforos de Lisboa, esmolas, nos cafés das aldeias, nos hospitais e tantos outros sítios com sinais, cruzamentos ou afins.
Continuam a realizar as quermesses e os bailaricos, a vender rifas e imperiais e apoiar freguesias e eventos municipais, a tirar gatos dos telhados, a abrir portas e a aturar alucinados e a troco de quê?
Paz aos soldados que “tombaram” perante a violência de um inimigo mercenário.
Justiça a quem todos os anos, com a coerência de um aniversário, combate o monstro, com a bravura medieval de um cavaleiro de escudo e espada, com a certeza de ter como certo, pouco, ou quase nada.
(Texto publicado no site do jornal Público a 03/09/2013) - http://p3.publico.pt/cultura/filmes/9186/ferro-e-fogo
22 de agosto de 2013
Olha lá!
É com toda a certeza desta vida que me atrevo a dizer que esta é uma das expressões mais caricatas e mais comummente empregues pelo português nos seus diálogos diários com as figuras que povoam o seu existir insípido, ou a sua existência glorificada, ou até mesmo com a solidão irreversível .
Assim de cabeça sou capaz (porque sou absolutamente genial e tenho uma prodigiosa capacidade criativa, aliada a uma modéstia que não conhece quaisquer precedentes) de descrever uma variedade notável de situações em que, regularmente, o mamífero bípede português utiliza esta expressão, que parece ser (gosto particularmente da conjugação deste verbo copulativo e que aponta sempre para a possibilidade, seja ela qual for, de se encontrar uma semelhança entre dois sujeitos, por mais obtusa que possa ser essa mesma tentativa) talhada para nos dirigirmos aos que de forma mais ou menos constante nos povoam os dias com a sua companhia.
Assim,:
- Olha lá! - Diz-lhe Natália, já cansada dos 45 anos, 30 dos quais como empregada de balcão num café da baixa pombalina.
Normalmente, uma interjeição desta natureza exclamativa, imperativa e ligeiramente agressiva, acaba sempre por merecer uma resposta de um cariz não menos marcante:
- Que é? - Responde-lhe Rúben, 23 anos, filho mais velho, a frequentar o 2º ano do curso de carteiristas do eléctrico liga Algés e a Praça da Figueira.
É frequente receber menções honrosas, fruto da admirável destreza que mostra no cumprimento do seu "dever".
Indignada e não satisfeita com a resposta do meliante que lhe calhou em sorte no destino da maternidade, riposta com dureza:
- Olha lá... Já te disse para que não me falas assim. Sou tua mãe e ainda tenho força para te espetar uma lambada nessas trombas qu' até te viras a boneca... Mas pensas que 'tás a falar com quem pá?
- Deves... (sussurra ele entre dentes, cabisbaixo e esboçando aquele sorriso típico do trafulha. O pequeno esgar de um dos cantos da boca com o olhar transverso e pernicioso).
- Tás a falar com quem? Mau, tu queres ver?
Francisco, 53 anos, pivô de uma estação de televisão, mune-se do mesmo discurso, mas num tom quase colérico a roçar a neurose, assim de fininho:
- Olha lá, então mas tu tás bêbado ou quê? Epá mas que merda de pivô é este? Todos os dias é a mesma merda. Toda a gente caga na pinha do papagaio, mas depois quem faz figura de otário sou eu! Foda-se, onde é que está a notícia no meio desta merda? Isto é inacreditável.
- Epá...
- Mas épa o quê pá?!
Deitados de barriga para cima sob o lençol amarfanhado pela volúpia desregrada com que se entregaram aos primeiros raios de sol da manhã, Sara e Gustavo, 29 e 31 anos respectivamente, escutam atenta e romanticamente os silêncios um do outro, com o mesmo embevecimento apaixonado e afogueado com que se amaram minutos antes.
De olhos bem abertos, cabelo solto e magistralmente deitado pescoço abaixo e descansando sobre o peito, descansando a cabeça no no ângulo formado pelo braço dobrado sobre a almofada e ainda a recuperar do esforço a que o coração a obrigou, diz-lhe assim baixinho:
- Olha lá Gus, e se fôssemos procurar uma casa para vivermos juntos e deixarmos de vez este corropio de hotel em hotel? Começo a ficar cansada disto e muito sinceramente não vejo porque temos de passar os dias longe um do outro.
- Já poucos nos sobram na verdade... sorrindo orgulhoso e ao mesmo tempo pensando em algo para lhe dizer...
- Não respondeste à minha pergunta.
- Estás mesmo a falar a sério? De um salto põe-se de pé, nu, com um daqueles sorrisos aparvalhados, tão típicos num homem enfeitiçado, isto, sem esquecer o distinto pormenor de tudo se passar no alto do 18º andar do Sheraton.
- Amo-te!
Naquele muro da adolescência, sentados com o Tejo a descansar os braços no fim de tarde delicioso de Setembro, Sofia, Joana, Simão e Ricardo lembram-se e sorriem debaixo do olhar atento da lua de Lisboa, enquanto ali sentados de pronto se recordam:
- Olha lá, tu lembras-te quando aqui estivemos todos, naquele noite de santos, em que, epá, sei lá, éramos na boa uns 60...
- Quando? Quando acabou tudo à trolhada lá em cima no castelo?
- Epá, não, tás todo cozido zé.
- Foi naquele ano em que veio toda a gente. Esta merda parecia o bairro, parecia que tínhamos saído de casa, e nem tínhamos saído sequer da nossa rua, foi o caos! Não dava para mexer sequer. Tudo com uma carga...
Pelas 02h45, mal sentado e com pouco para fazer, senta-se ao teclado para ver se saca qualquer coisa. Está ali quase petrificado.
Escreve, apaga, volta a escrever e a apagar, não sabe nem por onde começar, não sai nada. Encosta-se e pensa um pouco. Que fiz hoje? Durante a tarde lembrou-se de umas coisas com algum sentido, mas agora não sai nada.
Ca burro, nunca tens uma caneta e um papel, também não sei para que queres um telefone desses se não lhe dás uso.
Afasta o computador e pega no livro que está teimosamente poisado no braço distante do sofá da sala, onde está, a esta hora, como é hábito, total e completamente sozinho e em silêncio. No ecrã o sinal pisca incessantemente, se pudesse falar com toda a certeza diria:
- ... Não, não diria olha lá, isso era demasiado óbvio, claro está. Não me parece que não escolhesse outras palavras que não um vigoroso "fecha esta merda e vai dormir, escritor, pois tá bem. Estou certo que não deixarão de concordar que tem de haver algum cuidado na forma como se acaba uma coisa destas. Certo?
- Pois, bem me pareceu.
- Olha lá, mas vais desligar esta merda ou não?
Entretenho-me a divagar pela liberdade que me trás o simples pensar.
Ler é fácil, olhar, não é tão simples assim.
Somos o que somos e já é muito bom quando hipoteticamente cremos que de facto somos alguém. Para sermos mais é preciso existirmos e até para se existir é preciso ter coragem, quanto mais para se ser alguém.
Quantos de nós existimos, e quantos nunca chegam sequer a ser o que quer que seja? Nada, absolutamente nada.
- Olha lá que está a ficar tarde e depois acordas tarde e queixas-te que não fazes nada.
- Oh...
A vida é, ou pelo menos assim parece ser, uma professora absolutamente perfeita, mais até do que perfeita porque consegue ter, no assustador esplendor da perfeição, as mais cruéis e tenebrosas imperfeições. Como imperfeito é Deus.
Quanto mais vejo mais aprendo, quanto mais vivo mais descubro que mais e mais quero ver, viver descobrir e saber e hoje, hoje sei e sei-o bem, que sei mais do que alguma vez sonhei saber. E tudo porque olho. E não me perco a cada novo "Olha lá". E tu?
"Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se." Gabriel Garcia Márquez
"Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade." Fernando Pessoa
Assim de cabeça sou capaz (porque sou absolutamente genial e tenho uma prodigiosa capacidade criativa, aliada a uma modéstia que não conhece quaisquer precedentes) de descrever uma variedade notável de situações em que, regularmente, o mamífero bípede português utiliza esta expressão, que parece ser (gosto particularmente da conjugação deste verbo copulativo e que aponta sempre para a possibilidade, seja ela qual for, de se encontrar uma semelhança entre dois sujeitos, por mais obtusa que possa ser essa mesma tentativa) talhada para nos dirigirmos aos que de forma mais ou menos constante nos povoam os dias com a sua companhia.
Assim,:
- Olha lá! - Diz-lhe Natália, já cansada dos 45 anos, 30 dos quais como empregada de balcão num café da baixa pombalina.
Normalmente, uma interjeição desta natureza exclamativa, imperativa e ligeiramente agressiva, acaba sempre por merecer uma resposta de um cariz não menos marcante:
- Que é? - Responde-lhe Rúben, 23 anos, filho mais velho, a frequentar o 2º ano do curso de carteiristas do eléctrico liga Algés e a Praça da Figueira.
É frequente receber menções honrosas, fruto da admirável destreza que mostra no cumprimento do seu "dever".
Indignada e não satisfeita com a resposta do meliante que lhe calhou em sorte no destino da maternidade, riposta com dureza:
- Olha lá... Já te disse para que não me falas assim. Sou tua mãe e ainda tenho força para te espetar uma lambada nessas trombas qu' até te viras a boneca... Mas pensas que 'tás a falar com quem pá?
- Deves... (sussurra ele entre dentes, cabisbaixo e esboçando aquele sorriso típico do trafulha. O pequeno esgar de um dos cantos da boca com o olhar transverso e pernicioso).
- Tás a falar com quem? Mau, tu queres ver?
Francisco, 53 anos, pivô de uma estação de televisão, mune-se do mesmo discurso, mas num tom quase colérico a roçar a neurose, assim de fininho:
- Olha lá, então mas tu tás bêbado ou quê? Epá mas que merda de pivô é este? Todos os dias é a mesma merda. Toda a gente caga na pinha do papagaio, mas depois quem faz figura de otário sou eu! Foda-se, onde é que está a notícia no meio desta merda? Isto é inacreditável.
- Epá...
- Mas épa o quê pá?!
Deitados de barriga para cima sob o lençol amarfanhado pela volúpia desregrada com que se entregaram aos primeiros raios de sol da manhã, Sara e Gustavo, 29 e 31 anos respectivamente, escutam atenta e romanticamente os silêncios um do outro, com o mesmo embevecimento apaixonado e afogueado com que se amaram minutos antes.
De olhos bem abertos, cabelo solto e magistralmente deitado pescoço abaixo e descansando sobre o peito, descansando a cabeça no no ângulo formado pelo braço dobrado sobre a almofada e ainda a recuperar do esforço a que o coração a obrigou, diz-lhe assim baixinho:
- Olha lá Gus, e se fôssemos procurar uma casa para vivermos juntos e deixarmos de vez este corropio de hotel em hotel? Começo a ficar cansada disto e muito sinceramente não vejo porque temos de passar os dias longe um do outro.
- Já poucos nos sobram na verdade... sorrindo orgulhoso e ao mesmo tempo pensando em algo para lhe dizer...
- Não respondeste à minha pergunta.
- Estás mesmo a falar a sério? De um salto põe-se de pé, nu, com um daqueles sorrisos aparvalhados, tão típicos num homem enfeitiçado, isto, sem esquecer o distinto pormenor de tudo se passar no alto do 18º andar do Sheraton.
- Amo-te!
Naquele muro da adolescência, sentados com o Tejo a descansar os braços no fim de tarde delicioso de Setembro, Sofia, Joana, Simão e Ricardo lembram-se e sorriem debaixo do olhar atento da lua de Lisboa, enquanto ali sentados de pronto se recordam:
- Olha lá, tu lembras-te quando aqui estivemos todos, naquele noite de santos, em que, epá, sei lá, éramos na boa uns 60...
- Quando? Quando acabou tudo à trolhada lá em cima no castelo?
- Epá, não, tás todo cozido zé.
- Foi naquele ano em que veio toda a gente. Esta merda parecia o bairro, parecia que tínhamos saído de casa, e nem tínhamos saído sequer da nossa rua, foi o caos! Não dava para mexer sequer. Tudo com uma carga...
Pelas 02h45, mal sentado e com pouco para fazer, senta-se ao teclado para ver se saca qualquer coisa. Está ali quase petrificado.
Escreve, apaga, volta a escrever e a apagar, não sabe nem por onde começar, não sai nada. Encosta-se e pensa um pouco. Que fiz hoje? Durante a tarde lembrou-se de umas coisas com algum sentido, mas agora não sai nada.
Ca burro, nunca tens uma caneta e um papel, também não sei para que queres um telefone desses se não lhe dás uso.
Afasta o computador e pega no livro que está teimosamente poisado no braço distante do sofá da sala, onde está, a esta hora, como é hábito, total e completamente sozinho e em silêncio. No ecrã o sinal pisca incessantemente, se pudesse falar com toda a certeza diria:
- ... Não, não diria olha lá, isso era demasiado óbvio, claro está. Não me parece que não escolhesse outras palavras que não um vigoroso "fecha esta merda e vai dormir, escritor, pois tá bem. Estou certo que não deixarão de concordar que tem de haver algum cuidado na forma como se acaba uma coisa destas. Certo?
- Pois, bem me pareceu.
- Olha lá, mas vais desligar esta merda ou não?
Entretenho-me a divagar pela liberdade que me trás o simples pensar.
Ler é fácil, olhar, não é tão simples assim.
Somos o que somos e já é muito bom quando hipoteticamente cremos que de facto somos alguém. Para sermos mais é preciso existirmos e até para se existir é preciso ter coragem, quanto mais para se ser alguém.
Quantos de nós existimos, e quantos nunca chegam sequer a ser o que quer que seja? Nada, absolutamente nada.
- Olha lá que está a ficar tarde e depois acordas tarde e queixas-te que não fazes nada.
- Oh...
A vida é, ou pelo menos assim parece ser, uma professora absolutamente perfeita, mais até do que perfeita porque consegue ter, no assustador esplendor da perfeição, as mais cruéis e tenebrosas imperfeições. Como imperfeito é Deus.
Quanto mais vejo mais aprendo, quanto mais vivo mais descubro que mais e mais quero ver, viver descobrir e saber e hoje, hoje sei e sei-o bem, que sei mais do que alguma vez sonhei saber. E tudo porque olho. E não me perco a cada novo "Olha lá". E tu?
"Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se." Gabriel Garcia Márquez
"Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade." Fernando Pessoa
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