25 de março de 2012

Vês com os olhos que trazes!

Os dias contam-se, as noites também, as semanas são ligeiramente mais irregulares e difíceis de contabilizar. Já os meses, esses, voltam ao princípio aplicado aos dias e às noites, às tardes e ao fim das mesmas, às manhãs e às madrugadas, cabeças tapadas e as surdas gargalhadas de cristal.
Quem não conta, mente!
O quantificável permanece tangível, alcançável por entre os dedos saudosos e os lábios secos, gretados, gelados, implorando desesperadamente por uma abençoada salvação...
Levantam.se os olhos para o céu numa cadência nervosa e arisca, pensa-se e repensa-se, procura-se algo mais, encontram-se novidades em cada esquina, o cérebro não pára, não pode, não deve, não QUER!
Parar para quê? Fazer o quê mais que o impossível já tantas vezes feito?
Onde nos leva a cegueira?
Ás palmas das mãos. Nuas, frias, mas de uma genialidade sensorial e comunicacional a todos os títulos notável. Tudo depende das mãos nos dias que correm por nós.
Passamos os dias em comunicações surdas, com a única ferramenta ao nosso dispor que permite estabelecer uma conversa.
Não será por certo o resultado da mais frutuosa inspiração, mas quem não consegue de facto falar, os mudos, comunicam gestualmente, utilizando as mãos.
Ora o ser humano do século XXI utiliza o mesmo rigoroso princípio.
Escreve no computador, no Iphone, no Ipad, no BlackBerry, no telefone, whatever, mas conversa com a boca fechada, sentado, deitado, a conduzir, na santia, a andar, a trabalhar, de folga, seja lá onde for.
Portanto o cérebro não pára um instante e nós não damos a cara e escondemos-nos atrás das mãos, dizendo dessa forma tudo aquilo que as nossas próprias mãos tiverem a assumida coragem de dizer.
Se falamos tanto assim, mas sem falar de todo, sobra tempo para se pensar em mais e mais e mais e mais e ontem...
Ninguém lê em voz alta!
O coração, esse, ainda salta!
De quando em vez acorda-se como quem dorme, entorna-se o copo de água, dizes "Merda" e soltas uma daquelas respirações vindas das profundezas de tudo o que em ti existe e de tudo aquilo em que pensavas no teu sono profundo e perturbado, pensas, "porque estou agora acordado?".
Mais tarde queres acreditar que foste acordado(a), para seres poupado(a).
Já basta o dano por si só causado...
E ao cérebro, perguntas se está cansado?
Não pode, não tem sequer esse direito se eu tenho de viver, ele tem de trabalhar, agora, mais ainda, horas extra sobre outro extra de horas por contar, nas folgas, nas foras e nas noites e nos dias, não há descanso, em absolutamente nenhum destes dias.
Porquê? Porque não podes parar, não podes descansar.
Deus-te deu-te a capacidade de pensares, de lutares, racionalizares as coisas da forma que melhor, ou não, te aprouver, para que assim de pudesses diferenciar dos demais quadrúpedes e bichos (alguns bem mais feio do que qualquer um de vocês) que se passeiam pela Terra.
Se nos foi dada tamanha veleidade, porque não pensar em usá-la?
Ninguém descansa, ninguém pára, porque parar é ficar lá, é ir também, uma espécie de prisão auto-imputada. Com que fim? Com que lógica o ser humano se prende a coisas quantificáveis  e se embebeda com todas as memórias com que se consegue enfrascar, nos bilhetes, fotografias, músicas, ruas, pores-do-sol, estradas, músicas em estradas, de mãos dadas, as caras transpiradas, conversas inacabadas, estridentes gargalhadas, as conversas terminadas, as viagens, os sorrisos das viagens, as conversas e memórias, das memórias das viagens. Para quê tanta coragem?
Está já ali a outra margem. Sim, quando entras é frio ao início, mas depois, fica mais fácil.
Acredita em mim.
Eu já consigo acreditar... E falo comigo para me mentalizar, e penso, muito, muito mais do que alguma vez pensei.
Viver sozinho tem esse traço tão característico.
Quando sais de tudo o que és, dos papéis que desempenhas e representas, nos círculos por onde te movimentas, voltas par aonde estás só, para o sítio que é teu, que és tu com móveis e cadeiras, sozinho, de manhã, de tarde ou mesmo à noite.
E assim cresces, só, tu!
E se assim é, é porque é assim que tem de ser.
Não contraries as vontades do tempo, contraria as tuas e segues-as, percebes a complexidade da ideia? Eu sei que sim.
Escolhas.
Tudo são escolhas. Vais, não vais. Levantas-te, ficas deitado, falas ou ficas calado, escreves ou ficas parado.
Cada escolha tem o seu tempo próprio e apropriado.
Deixa-o estar, deixa-o passar, passa por ele e sobretudo aprende a deixá-lo passar por ti...
Mais do que tempo, somes o fruto mais puro e fresco do próprio pensamento.
Vamos, somos, fazemos, escrevemos, dizemos, tudo aquilo que queremos e pensamos que podemos...
Aprendemos, ou pensamos que o fazemos e não sabemos e lá vamos vendo o mundo, cada dia numa forma, observando o que cresce em teu redor, verás que o amanhã pode sempre ser melhor, ou pior.
Sente quem és, reconhece quem no espelho encontras, fala-lhe e relembra-lhe quem tem pela frente, não só na feliz felicidade se ter a oportunidade de olhar a vida, com os olhos de quem tudo sente.
Uma coisa te garanto, há nesta vida, nesta, por vezes, estranha forma de vida, quem nunca a olhe frente e permaneça indiferente ao que diz o seu pensar...
Escreves com os olhos que hoje trazes... e deles o que vês e o que deles fazes.
Neste mundo, nem tudo são bons rapazes...

19 de março de 2012

Como se ama novamente? Lâmpadas de luz intermitente

A pergunta não é simples, a resposta?
Haverá sequer, uma resposta?!
Será alguém capaz de explicar se é ou não possível voltar a amar alguém depois de se perder um amor de uma vida?
Como será o amor depois da dor mais profunda, do luto, da tristeza indescritível, da descrença no presente e na incerteza no que está para vir, da sensação mais porca e imunda, mais dolorosa e profunda?
Eventualmente... será novo.
Eventualmente trará medo.
Eventualmente, estar-se-à mais preocupado com o que não se quer sentir, do que com o que se pode passar, ou onde se pode chegar!
Tentar outra vez depois de uma situação de choque, de ruptura, de quebra, de dor, é sempre complicado, envolve uma preparação psicológica tremenda.
Imaginem que sofrem um acidente de mota, de carro, ou qualquer outro tipo de acidente menos dramático, mas igualmente acidental, onde  partem todinhos(as).
Nos tempos que se seguirem será difícil enfiarem-se novamente dentro de um carro, em cima de uma mota ou oceano dentro, porque o medo de poderem ver repetido tudo o que já passaram é terrível, só a leve ideia de isso se passar novamente é totalmente assustadora, aterradora, dolorosa, angustiante, sufocante, desesperante, tenebrosa...
Como angustiante é a ideia de pensar em sofrer novamente, seja de que tamanho for o sofrimento em questão.
Porque o sofrimento também ele tem altura, peso e largura, acima de tudo tem volume, maior ou menor consoante o que se sente, e a certeza de que aquilo que foi, NÃO VOLTA NOVAMENTE!
E para se amar novamente, é preciso não ter medo de cair, ou fazê-lo a sorrir.
E Ele está sempre à espreita do fugaz deslizo da alma ansiosa pela compensação, pelo sorriso, pelo carinho, doçura, ternura, preocupação, companhia, protecção, alegria, pelas conversas de olhares de magia.
E como será que tudo se processa nessa altura?
E será, que ao menos dura?
Que vale a pena a aventura?
Será que a alma se segura?
Quem sabe que responda, se ao menos o tamanho da onda é proporcional ao da mão que me segura.
Se a sensação que se segue não é mais que uma aventura...
Se há quem seja, capaz de ser maior do quem beija, de ver além, o que aquém mais não causa dor. Pode responder por favor?
Do ventre sai a palavra, aquela a que chamam Amor.
E a mente que tudo sente, que não há quem tente, ou fique sequer indiferente a tudo o que vai vendo na frente, provérbio indefinido da gente, que deixa que a atormente, num paladino sentimento percursor.
Será tudo isto o medo eterno do Amor?
Quem não arrisca não petisca, já diz o povo sabedor. 
Os conselhos do povo, são eles de maior ou mais curto valor?
Ao imprevisto não resisto e de mim bem sei que nao desisto, por isso insisto e volto a pensar mais um pouco nisto.
Deito-me e não durmo.
Clássico.
Normal.
De comer até me esqueço.
Não é bom, pois não, pois então o que fazer com tanta incompreensão?
Onde chega o grau de aceitação da sensação que te foge da mão e te esventra o coração, te devora a razão e toda e qualquer outra racionalização.
Por entre filmes e documentários, livros, textos e outros tantos cenários, não se prova o seu contrário.
Que sim.
Que é possível.
Que o amor nos descobre e não o contrário.
Que também ele nos absorve e nos tira do armário.
Que na vida bem vivida, não há nada que não se consiga.
Crescente o sentimento que o assola, mesmo não sendo ele mais uma criança sentada no banco da escola, ou o pedinte que à porta do café pede esmola, no entanto todas as curvas de vida lhe conferem uma doçura perdida, que agora deixa brotar.
É vida que vive e emoção que lhe passa bonita aos olhos.
Pisca-lhe um deles e com o outro segura o vestido que eles alcançam.
Vai de sabrinas pequeninas, iguais ao número que seus os pézinhos calçam.
Tens medo?
Eu tenho.
Posso contar-te um segredo?
Gosto do conceito segredo, mas não pelo secretismo, antes pelo que envolve o dizer de um segredo.
Para mim um segredo é sentido e contado de leve ao ouvido, que chega a arrepiar.
Sim, é um momento privado de uma intimidade colegial, mas que reproduz, em tão simples gesto primordial, a natureza de uma ideia que se quer surda para os que estão à volta.
Lembras-te como soava? Lembras-te da voz que falava?
Agora não.
Agora reinventam-se as formas.
Reescrevem-se as páginas e pintam-se os rostos.
É com receio que trazes no bolso a palavra desgosto, que teimas em não embrulhar e deitar no "palavrão"(conceito por mim reformado e que pode ser assim utilizado como o contentor de todo o léxico estragado, ou impossível de ser reutilizado).
Mas com trejeitos de lembrança, mantendo por perto a pequena sensação de desconfiança que tem uma criança que sente estar a ser manipulada.
Sobrancelhas franzidas, palavras cuidadosamente escolhidas, não se quer por nada pôr álcool nas feridas.
Venham mais anos com fúria calorosa de viver.
Venham tantas mais coisas quanto a vida quiser oferecer.
Só pelo prazer de poder agradecer a quem tanto me ajudou a crescer.
O futuro?
Quando lá chegar, logo se vai ver.
Por agora dou e limito-me a viver e que bem que sabe sorrir sem o sorriso esconder.
Há sempre lâmpadas que se fundem mas que se voltam a acender.






13 de março de 2012

Saudade é para quem tem!

"Mas dou-te mais uma vez, meu bem, saudade é pra quem tem".

http://www.youtube.com/watch?v=URD3-bID9d8

 A Marcelo Camelo tenho de agradecer obrigatoriamente a construção destas frases em forma melodiosa que segredam ao ouvido sensações únicas a que nos remete a palavra SAUDADE.
No limiar da fronteira entre o dia e a noite assume o escritor a sua veia criativa.
Pensa de dia e plastifica de noite.
Novos desafios e construções de significâncias surgem aos olhos do homem que em tempos não o foi, da criança que hoje não é mais.
As ilusões são criadas pela vontade de as ver acontecer.
Os sonhos são tão somente vontades projectadas e epifanias disfarçadas.
Sonhar é o querer inconsciente, "pintado" com imagens do real, que na mente são dobradas, retorcidas, adequadas, encaixadas e devidamente traduzidas.
Ser sonhador é tão mais do que fazer simples transposições de imagéticas da vida para o local onde acordados nunca estamos.
Ninguém sonha acordado.
Tal coisa não existe.
Ou se sonha a dormir, ou se dejesa conscientemente o que se quer.
Sendo o sonho a matéria abrilhantada que reside no subconsciente e sendo essa a sua magia, o facto de aparecer de noite, ou de dia, mas única e exclusivamente enquanto dormimos, descansados ou nem tanto assim.
O tempo tende a trazer-nos memórias do que sonhámos, do que sonhamos, na correcta proporção e no verdadeiro equilíbrio e balanço de uma sequência Fibonacci.
- Não desisto, ouviste bem? Não o farei. Te garanto e te prometo que nunca virarei as costas, nunca o faço, nunca o fiz e nunca o farei.
- Mas porque me dizes tudo isso Kiko?
- Porque sim.
E Madalena logo se calou, e aquelas palavras permaneceram na sua mente durante semanas, meses.
Francisco foi, voltou, sorriu e mais tarde, já de noite, já deitado, chorou.
Não era seu hábito quebrar assim, mas o ser humano precisa disto, precisa de quebrar, precisa de cair para se poder levantar com o erguer-se do chão perceber que de facto o mundo e a vida não são junto ao alcatrão!
Madalena e Francisco continuaram a viver o quase platónico sonho de uma manhã de verão no mercado da Lapa.
Ele esperou, esperou, esperou e continuou a esperar pelo dia que sabia, que um dia, iria ver chegar.
Ela não sabia, não sabia como saber, não tinha como o fazer.
Ele descansou-a, fê-la perceber que não havia medo a ter.
Que o futuro era um lugar todo ele desconhecido, mas na verdade, é assim que ele deve permanecer.
Haverá notícia pior que saber o que futuro irá trazer?
Os dias vão passando.
Multiplicam-se pelo expoente máximo os sorrisos, os abraços, as conversas, as brincadeiras, os beijinhos e as bebedeiras de felicidade, sem nunca se prometer nada mais, do que ser fiel ao compromisso de verdade e sinceridade assumidos diariamente um com o outro.
- Não vou a lado nenhum. Não tenho pressa para nada, nem planos de partir, disse Francisco ao ouvido de Madalena.
Ela voltou a fechar os olhos, sentiu o arrepio tão doce, e perguntou-lhe ainda mais baixinho:
- Abraças-me até ser dia?
- Seja qual for o dia!
Este amor dura e perdura no tempo.
Quem são os Franciscos e as Madalenas desta nossa existência?
São os que esperam sem prazo imposto, são os que aguardam sem pensar em desgosto, são os que se olham sempre, mas sempre, de sorriso no rosto.
A vida é para a frente, a vida é ontem, hoje e amanhã?
Que bem que sabe o trincar fresco de uma maçã.
Já mais tarde, de meninos pela casa, de rugas orgulhosas na cara, brinquedos espalhados na sala, olham-se em certa tarde, e perguntam sem dizer nada...
- Foi esta a viagem encantada?
- Foi esta a viagem desejada e sonhada?
Respondem com um piscar de olho, com um sorriso rasgado, o gesto apaixonado de dizer gosto de ti sem abrir a boca.
Quem sabe do que se fala quando a boca se cala?
De mãos dadas no terraço, envolve-os o abraço e o olhar terno de uma vida já vivida, com a cumplicidade merecida.
São amores de uma vida, que se viu a espaços perdida, mas sem nunca se desleixar!
São entregas perpetuadas, de uniões abençoadas pelo destino que insistiu em os juntar.
Se haveria alguém que um dia pudesse prever como esta história se viria a desenrolar?
E não é essa mesma imprevisibilidade que traz o brilho ao nosso olhar?
Sinto hoje um qualquer burburinho das almas, perdidas entre noites quentes e calmas de arrepios e borboletas.
Sei que no fundo tudo se resume à ebulição de todas as emoções concentradas, de tantas tentativas falhadas, de percepções assutadas, que na vida enebriadas, se desvancem com o tempo, te trazem à boca o lamento, mas subitamente...
Devolve-se à alma o alento, sim e sei que sou eu que o alimento, mas chega, já não aguento, já não aguentava.
Era a porta que batia e a janela que fechava. E a mim, em mim, pouco ou nada se encontrava...
Pretérito do verbo encontrar, conjugado na forma correcta, porque é na presente que vivo agora, vou, na janela com a cabeça de fora, sorrindo até te encontrar...
Não páro, não tranco a cara nem cerro os lábios, ao invés reinvento a lógica tantas vezes subjugada, de procurar pontos de luz em casas de janelas fechadas.
É tarefa dura? É, mas sabe bem, sabe tão bem dar e receber, sabe tão bem, olhar, não falar e perceber.
Sabe tão bem sentir saudades de quem...
Sabe tão bem não pensar em mais ninguém.
De flores se retira o cheiro, dos teus olhos o olhar, fico nele assim bem preso, até o dia voltar para me acordar.