13 de março de 2012

Saudade é para quem tem!

"Mas dou-te mais uma vez, meu bem, saudade é pra quem tem".

http://www.youtube.com/watch?v=URD3-bID9d8

 A Marcelo Camelo tenho de agradecer obrigatoriamente a construção destas frases em forma melodiosa que segredam ao ouvido sensações únicas a que nos remete a palavra SAUDADE.
No limiar da fronteira entre o dia e a noite assume o escritor a sua veia criativa.
Pensa de dia e plastifica de noite.
Novos desafios e construções de significâncias surgem aos olhos do homem que em tempos não o foi, da criança que hoje não é mais.
As ilusões são criadas pela vontade de as ver acontecer.
Os sonhos são tão somente vontades projectadas e epifanias disfarçadas.
Sonhar é o querer inconsciente, "pintado" com imagens do real, que na mente são dobradas, retorcidas, adequadas, encaixadas e devidamente traduzidas.
Ser sonhador é tão mais do que fazer simples transposições de imagéticas da vida para o local onde acordados nunca estamos.
Ninguém sonha acordado.
Tal coisa não existe.
Ou se sonha a dormir, ou se dejesa conscientemente o que se quer.
Sendo o sonho a matéria abrilhantada que reside no subconsciente e sendo essa a sua magia, o facto de aparecer de noite, ou de dia, mas única e exclusivamente enquanto dormimos, descansados ou nem tanto assim.
O tempo tende a trazer-nos memórias do que sonhámos, do que sonhamos, na correcta proporção e no verdadeiro equilíbrio e balanço de uma sequência Fibonacci.
- Não desisto, ouviste bem? Não o farei. Te garanto e te prometo que nunca virarei as costas, nunca o faço, nunca o fiz e nunca o farei.
- Mas porque me dizes tudo isso Kiko?
- Porque sim.
E Madalena logo se calou, e aquelas palavras permaneceram na sua mente durante semanas, meses.
Francisco foi, voltou, sorriu e mais tarde, já de noite, já deitado, chorou.
Não era seu hábito quebrar assim, mas o ser humano precisa disto, precisa de quebrar, precisa de cair para se poder levantar com o erguer-se do chão perceber que de facto o mundo e a vida não são junto ao alcatrão!
Madalena e Francisco continuaram a viver o quase platónico sonho de uma manhã de verão no mercado da Lapa.
Ele esperou, esperou, esperou e continuou a esperar pelo dia que sabia, que um dia, iria ver chegar.
Ela não sabia, não sabia como saber, não tinha como o fazer.
Ele descansou-a, fê-la perceber que não havia medo a ter.
Que o futuro era um lugar todo ele desconhecido, mas na verdade, é assim que ele deve permanecer.
Haverá notícia pior que saber o que futuro irá trazer?
Os dias vão passando.
Multiplicam-se pelo expoente máximo os sorrisos, os abraços, as conversas, as brincadeiras, os beijinhos e as bebedeiras de felicidade, sem nunca se prometer nada mais, do que ser fiel ao compromisso de verdade e sinceridade assumidos diariamente um com o outro.
- Não vou a lado nenhum. Não tenho pressa para nada, nem planos de partir, disse Francisco ao ouvido de Madalena.
Ela voltou a fechar os olhos, sentiu o arrepio tão doce, e perguntou-lhe ainda mais baixinho:
- Abraças-me até ser dia?
- Seja qual for o dia!
Este amor dura e perdura no tempo.
Quem são os Franciscos e as Madalenas desta nossa existência?
São os que esperam sem prazo imposto, são os que aguardam sem pensar em desgosto, são os que se olham sempre, mas sempre, de sorriso no rosto.
A vida é para a frente, a vida é ontem, hoje e amanhã?
Que bem que sabe o trincar fresco de uma maçã.
Já mais tarde, de meninos pela casa, de rugas orgulhosas na cara, brinquedos espalhados na sala, olham-se em certa tarde, e perguntam sem dizer nada...
- Foi esta a viagem encantada?
- Foi esta a viagem desejada e sonhada?
Respondem com um piscar de olho, com um sorriso rasgado, o gesto apaixonado de dizer gosto de ti sem abrir a boca.
Quem sabe do que se fala quando a boca se cala?
De mãos dadas no terraço, envolve-os o abraço e o olhar terno de uma vida já vivida, com a cumplicidade merecida.
São amores de uma vida, que se viu a espaços perdida, mas sem nunca se desleixar!
São entregas perpetuadas, de uniões abençoadas pelo destino que insistiu em os juntar.
Se haveria alguém que um dia pudesse prever como esta história se viria a desenrolar?
E não é essa mesma imprevisibilidade que traz o brilho ao nosso olhar?
Sinto hoje um qualquer burburinho das almas, perdidas entre noites quentes e calmas de arrepios e borboletas.
Sei que no fundo tudo se resume à ebulição de todas as emoções concentradas, de tantas tentativas falhadas, de percepções assutadas, que na vida enebriadas, se desvancem com o tempo, te trazem à boca o lamento, mas subitamente...
Devolve-se à alma o alento, sim e sei que sou eu que o alimento, mas chega, já não aguento, já não aguentava.
Era a porta que batia e a janela que fechava. E a mim, em mim, pouco ou nada se encontrava...
Pretérito do verbo encontrar, conjugado na forma correcta, porque é na presente que vivo agora, vou, na janela com a cabeça de fora, sorrindo até te encontrar...
Não páro, não tranco a cara nem cerro os lábios, ao invés reinvento a lógica tantas vezes subjugada, de procurar pontos de luz em casas de janelas fechadas.
É tarefa dura? É, mas sabe bem, sabe tão bem dar e receber, sabe tão bem, olhar, não falar e perceber.
Sabe tão bem sentir saudades de quem...
Sabe tão bem não pensar em mais ninguém.
De flores se retira o cheiro, dos teus olhos o olhar, fico nele assim bem preso, até o dia voltar para me acordar.

12 de março de 2012

Que bem que cheiras tu Liberdade!

Respirar livremente é algo que me transcende.
Obviamente que o respirar mais não é que uma metáfora para tudo o que se me aparece no pensamento, quando penso na palavra e no conceito da própria respiração a que me refiro.
Refiro-me ao olhar, ao tocar, ao pensar, ao sonhar, ao tentar, desistir, vencer e convencer, errar e perceber, crescer e descobrir, ao caminho a seguir, às noites de luar, às estrelas no olhar, ao mais puro arrepiar, ao poder de um abraçar, ao não saber o que pensar e mesmo assim continuar, ao sorrir e ao brincar, ao gostar e detestar, mesmo quando dou por mim a chorar.
A Liberdade tem cheiro.
A liberdade tem o cheiro do cheiro que quero que tenha.
A liberdade tem sabor.
A liberdade sabe a tudo aquilo que quero que ela saiba, e mesmo ao que não quero também.
É morango, ananás, e que bem que ela faz, são abraços e beijos, vinhos tintos e queijos, sal e pimenta, a cebola, que é nojenta, e essa liberdade não se aguenta...
Sabe ao sabor do vento, ao refinar do pensamento, à tristeza do lamento, ao "chega que já não aguento".
Mas sabe também à frescura do mar, à ternura de um olhar, ao ingénuo arrepiar, sentes a minha mão a transpirar? É disto que estou a falar.
Por vezes, aprisionamos-nos na incerteza do que está para vir, com a tristeza do que para trás ficou a pesar sobre o pensamento, como se fosse de facto um monumental bloco de cimento que não largamos, mesmo quando nos deitamos.
Que vida é essa a que nos submetemos se somos de facto responsáveis pelas maioria das escolhas que fazemos?
Não incluo as crianças neste grupo de superiores entidades que podem decidir o curso das suas vidas.
Quem as tem, quem tem a felicidade de as ter, sabe também, que a essa felicidade vem juntar-se responsabilidade e sobretudo, a conta passa a ser sempre feita a + 1, com a felicidade que daí advém, mas não estou aqui para falar de ser pai ou ser mãe.
Ser livre é na verdade a melhor prenda que Deus concedeu ao homem, que tantas vezes subverteu e subverte essa veleidade divina, com o subjugar dos seus pares a vontades obscuras e sobretudo, egoístas e pessoais.
A liberdade de escolha é talvez a grande liberdade do ser humano.
Existem várias, e é minha crença, nos dias que correm, que a liberdade é tão mais vasta em formas quanto mais formas conseguimos para ela criar, na vastidão de uma curta vida.
A vida é mais curta ou mais longa, divertida ou aborrecida, mas no centro de tudo isso estão as escolhas, as certas e as perdidas.
E é de escolhas que trata a liberdade, pelo menos a liberdade dos tempos modernos.
Não quero pôr-me aqui com pretensões neo-filosóficas ou pós-modernistas, julgando que para isso tenho qualquer tipo de competência, nada disso, simplesmente se vai tornando cada vez mais evidente que tudo assenta aí, nas escolhas que fazemos, nos tempos que damos à nossa própria vida, aos pensamentos, sentimentos, vontades, verdades, mentiras, empregos, trabalhos, ocupações, bens materiais, imateriais, objectivos, rupturas, fracassos, falhanços e desesperos, vitórias e tantas outras histórias, memórias, lembranças e certezas incertas.
Mas de facto temos o poder de escolher, de mudar, de escolher para o que vamos mudar, de escolher igualmente o que não queremos, não gostamos, não temos e onde não vamos!
E ao ir, chega toda uma variedade de possibilidades e na escolha reside a vida.
Somos nós próprios, reflexo de uma escolha de outras duas pessoas, ou de uma apenas, mas somos escolha, escolhemos e seremos as escolhas que fizermos.
Na vida, amamos, perdemos, ganhamos, odiamos, magoamos, ajudamos, tratamos, cuidamos, protegemos, agredimos, batemos e somos batidos, surpreendemos e somos surpreendidos, vivemos e somos vividos e sobretudo passamos toda uma vida a escolher entre o que queremos e o que não queremos, por isso, tantas vezes sofremos tanto com o que não queremos, porque já o pensámos tanto anteriormente.
Isto não é sequer condenável, nem criticável, é factual, facilmente constatável e adquirido como algo que é assim mesmo. Não há volta a dar, e pensar nisso tempo demasiado, é dar ao tempo, claramente o destino errado.
Somos a vida que vivemos, por isso estamos obrigatoriamente condicionados pelas ligações, conexões, automatismos, amizades, amores, desamores, felicidades e horrores, tristezas e dissabores que nela conhecemos.
Não há como fugir disso.
Somos o meio e o produto desse meio, somos reflexão e conhecimento e sobretudo creio que devíamos (e é de forma propositada que não utilizo o tempo verbal no presente (devemos), mas apelo antes para uma sonhadora visão... enevoada pela forma como olho a vida) ter todos uma dívida para com o pensamento, devíamos todos ser mais do que sinceros para com a Alma que carrega o corpo debaixo do braço (João Pedro de Carvalho).
A vida é diária, não tem folgas e não é "dia sim, dia não", é feita do girar da terra e da diferenciação forçada entre Noite e Dia, escuro e claro e as diversas tonalidades que pelo meio se misturam, são todas elas vividas, e as vivências, tantas há que não perduram.
O que será que procuram os que ao pensamento fogem?
Que escolha faz quem desiste de si mesmo?
Que forma é essa de cheirar a Liberdade?
 

11 de março de 2012

Este sou eu... Madalena!

No decorrer dos dias que passam...
Não.
Não posso começar isto assim.
No passar dos dias que correm...
Bem melhor agora.
No passar dos dias que correm e passam por nós como se de torpedos se tratassem, é cada vez mais certa a certeza de que actualmente se conversa muito, mas fala-se pouco.
As conversas são tantas vezes inócuas, inconclusivas, insípidas, insólidas, ilíquidas, incorrectas, disparatadas, vazias, fechadas, estúpidas e desconexas.
Conversa-se sobre tudo, mas não se fala sobre nada.
Diz-se tanta coisa, mas tanta coisa fica por dizer, é deixada por dizer, propositadamente com o despropósito de esconder, não revelar, proteger uma qualquer estúpida ideia de privacidade, de "só a mim me diz respeito", "ninguém tem nada a ver com isso", e para quê?
Com que finalidade?
Com que propósito viramos costas à significância da palavra, do desabafo, do aconselhamento, do simples partilhar, com vista a um secretismo secular de igreja, que na verdade a única que coisa que faz é isolar, segregar, magoar, e tantas outras anormalidades terminadas em AR.
Somos animais de partilha.
Partilhamos comida, dinheiro, roupa, pensamentos, ideias, personalidades, desejos, interesses e até esses, são mantidos na escuridão.
De que temos afinal medo?
O que receamos ao certo, para, a céu aberto, nos embrenharmos no mais puro deserto de companhia, pelo mais pantanoso lodo de solidão.
Voltando a Madalena.
Voltando a Madalena, tanto se acrescenta ao pensamento que alimenta.
Os dias também passam por ela a correr, também tem conversas em que não fala, mas vive e olha a vida de uma forma atrevida.
Madalena sorri ao acordar, portanto, uma autêntica anormal dirão muitos, mas eu digo que ela sim, a Madalena vive, sonha e acorda feliz, simplesmente porque acordou, porque abriu novamente os olhos e lá fora o sol já aquece novamente, os livros cantam o seu nome em letras de surdina orquestrada e dele não sabe ela mais nada?
Soube.
Soube que se chama Francisco. Que mora na rua paralela à da casa onde trabalha.
Que escreve, ri e conta com uma alegria infantil.
Atenção, quando lhe atribuo essa mesma, alegria infantil, não o faço com o sentido depreciativo que o fazem os tristes que não falam.
Faço-o porque poucas coisas se comparam à alegria virtuosa de uma criança feliz.
Ao sorriso entregue e puro nos olhos de um petiz.
E quem discorda, é tolo ou não sabe o que diz.
Madalena e Francisco falam, conversam, sorriem como duas crianças, observados de perto por cachos de bananas, molhos de agriões, montanhas de laranjas, maçãs e limões, com o tempo contado, mas todo ele tão bem aproveitado, tão dedicado, como um namoro confirmado, que brilha em qualquer lado, sem medo do passado, com o futuro pela frente, sem pensar nele constantemente, assim vivem no presente.
Para quê pensar em mais, enquanto não é tempo de o fazer?
Para quê estragar tudo, com desejos impossíveis, vontades impostas e sonhos delirantes?
Para quê acabar o que pode estar somente a começar?
Para quê conversar sem sequer falar?
Para quando o compromisso para com a verdade, não a dos outros, mas a nossa própria verdade, escavada daquilo a que chamamos de realidade.
- Está na hora Madalena, tens de voltar para cima, diz Francisco com os olhos meio molhados e pensativos de quem se vai ver afastado de tudo o que de maior e melhor tem na vida.
Madalena pestaneja vagarosamente, como vagarosos e revoltados são os passos que dá rua acima, em direcção ao dever, afastando-se do querer, porque é assim que tem de ser.
Por estes dias, Madalena cresceu, amadureceu e tornou-se uma mulher linda, de mãos suaves e pequeninas, dedos finos e desenhados, que com os de Francisco entrelaçados, criam um tricô de felicidade e pureza.
É amor pois com certeza.
Aos 23 anos, Madalena brilha, como nunca antes brilhou, ama, como nunca sonhou, lembra o que para trás já ficou, e sabe que a felicidade chegou.
Francisco espera diariamente pela Deusa que vê descer a rua, brilha num tom que está entre o sol e a lua, olha-a como se a visse a cada dia pela primeira vez, uma e outra vez, sofre com a partida, leva horas a recompor-se, não come se ela não aparece, não adormece sem lhe falar.
Francisco e Madalena sabem bem o que é amar.
Se para sempre é medida tempo, eles não o querem contar.
Dizem: "Que o para sempre seja o tempo, do tempo que o para sempre durar!"
E dizem-no tantas, vezes, muitas delas, falando tão somente com o olhar.
Tem o sonho de casar. De branco, de véu, tem o sonho de ter sonhos que não deixam de a encantar, ver Francisco à sua espera no altar, e esse dia, irá chegar?
Francisco adivinha o seu pensar.
De anéis percebe pouco, precisa de quem o possa orientar.
De sua mãe, Madalena ouve os conselhos preocupados, de quem vê a filha e o namorado, num bairro bem falado, de orgulhos e maledicências.
Para a Madalena só a verdade e não há consequências.
Francisco pede ajuda, mas não sabe nem sequer por onde começar?
De uma coisa tem ele a certeza.
É Madalena.
A pequena está na biblioteca.
Devora livros sem parar.
Tudo graças a Francisco e a todo o seu "maroto" cortejar. 
Se na vida há mais que isto, onde está então escondido, onde se deve procurar?
Dizem que o amor é um livro.
Quantas páginas pode ter?
De que género deve ser?
Em que língua se deve ler?
O amor é lindo em português.
Francisco vai pedir, mas não sabe bem como...
Começa a conversa dizendo...
- Este sou eu Madalena... Sou assim como tu sabes que sou.
- E eu que gosto tanto... desse, deste que tu és Kiko.
Ele diz tudo o resto ao ouvido.
Ela fecha os olhos. Arrepios. Acenos com a cabeça, sorrisos, olhos esbugalhados... olhar já encharcado e estende os abraços para o abraçar.
Um abraço é um beijo desenhado.