12 de março de 2012

Que bem que cheiras tu Liberdade!

Respirar livremente é algo que me transcende.
Obviamente que o respirar mais não é que uma metáfora para tudo o que se me aparece no pensamento, quando penso na palavra e no conceito da própria respiração a que me refiro.
Refiro-me ao olhar, ao tocar, ao pensar, ao sonhar, ao tentar, desistir, vencer e convencer, errar e perceber, crescer e descobrir, ao caminho a seguir, às noites de luar, às estrelas no olhar, ao mais puro arrepiar, ao poder de um abraçar, ao não saber o que pensar e mesmo assim continuar, ao sorrir e ao brincar, ao gostar e detestar, mesmo quando dou por mim a chorar.
A Liberdade tem cheiro.
A liberdade tem o cheiro do cheiro que quero que tenha.
A liberdade tem sabor.
A liberdade sabe a tudo aquilo que quero que ela saiba, e mesmo ao que não quero também.
É morango, ananás, e que bem que ela faz, são abraços e beijos, vinhos tintos e queijos, sal e pimenta, a cebola, que é nojenta, e essa liberdade não se aguenta...
Sabe ao sabor do vento, ao refinar do pensamento, à tristeza do lamento, ao "chega que já não aguento".
Mas sabe também à frescura do mar, à ternura de um olhar, ao ingénuo arrepiar, sentes a minha mão a transpirar? É disto que estou a falar.
Por vezes, aprisionamos-nos na incerteza do que está para vir, com a tristeza do que para trás ficou a pesar sobre o pensamento, como se fosse de facto um monumental bloco de cimento que não largamos, mesmo quando nos deitamos.
Que vida é essa a que nos submetemos se somos de facto responsáveis pelas maioria das escolhas que fazemos?
Não incluo as crianças neste grupo de superiores entidades que podem decidir o curso das suas vidas.
Quem as tem, quem tem a felicidade de as ter, sabe também, que a essa felicidade vem juntar-se responsabilidade e sobretudo, a conta passa a ser sempre feita a + 1, com a felicidade que daí advém, mas não estou aqui para falar de ser pai ou ser mãe.
Ser livre é na verdade a melhor prenda que Deus concedeu ao homem, que tantas vezes subverteu e subverte essa veleidade divina, com o subjugar dos seus pares a vontades obscuras e sobretudo, egoístas e pessoais.
A liberdade de escolha é talvez a grande liberdade do ser humano.
Existem várias, e é minha crença, nos dias que correm, que a liberdade é tão mais vasta em formas quanto mais formas conseguimos para ela criar, na vastidão de uma curta vida.
A vida é mais curta ou mais longa, divertida ou aborrecida, mas no centro de tudo isso estão as escolhas, as certas e as perdidas.
E é de escolhas que trata a liberdade, pelo menos a liberdade dos tempos modernos.
Não quero pôr-me aqui com pretensões neo-filosóficas ou pós-modernistas, julgando que para isso tenho qualquer tipo de competência, nada disso, simplesmente se vai tornando cada vez mais evidente que tudo assenta aí, nas escolhas que fazemos, nos tempos que damos à nossa própria vida, aos pensamentos, sentimentos, vontades, verdades, mentiras, empregos, trabalhos, ocupações, bens materiais, imateriais, objectivos, rupturas, fracassos, falhanços e desesperos, vitórias e tantas outras histórias, memórias, lembranças e certezas incertas.
Mas de facto temos o poder de escolher, de mudar, de escolher para o que vamos mudar, de escolher igualmente o que não queremos, não gostamos, não temos e onde não vamos!
E ao ir, chega toda uma variedade de possibilidades e na escolha reside a vida.
Somos nós próprios, reflexo de uma escolha de outras duas pessoas, ou de uma apenas, mas somos escolha, escolhemos e seremos as escolhas que fizermos.
Na vida, amamos, perdemos, ganhamos, odiamos, magoamos, ajudamos, tratamos, cuidamos, protegemos, agredimos, batemos e somos batidos, surpreendemos e somos surpreendidos, vivemos e somos vividos e sobretudo passamos toda uma vida a escolher entre o que queremos e o que não queremos, por isso, tantas vezes sofremos tanto com o que não queremos, porque já o pensámos tanto anteriormente.
Isto não é sequer condenável, nem criticável, é factual, facilmente constatável e adquirido como algo que é assim mesmo. Não há volta a dar, e pensar nisso tempo demasiado, é dar ao tempo, claramente o destino errado.
Somos a vida que vivemos, por isso estamos obrigatoriamente condicionados pelas ligações, conexões, automatismos, amizades, amores, desamores, felicidades e horrores, tristezas e dissabores que nela conhecemos.
Não há como fugir disso.
Somos o meio e o produto desse meio, somos reflexão e conhecimento e sobretudo creio que devíamos (e é de forma propositada que não utilizo o tempo verbal no presente (devemos), mas apelo antes para uma sonhadora visão... enevoada pela forma como olho a vida) ter todos uma dívida para com o pensamento, devíamos todos ser mais do que sinceros para com a Alma que carrega o corpo debaixo do braço (João Pedro de Carvalho).
A vida é diária, não tem folgas e não é "dia sim, dia não", é feita do girar da terra e da diferenciação forçada entre Noite e Dia, escuro e claro e as diversas tonalidades que pelo meio se misturam, são todas elas vividas, e as vivências, tantas há que não perduram.
O que será que procuram os que ao pensamento fogem?
Que escolha faz quem desiste de si mesmo?
Que forma é essa de cheirar a Liberdade?
 

11 de março de 2012

Este sou eu... Madalena!

No decorrer dos dias que passam...
Não.
Não posso começar isto assim.
No passar dos dias que correm...
Bem melhor agora.
No passar dos dias que correm e passam por nós como se de torpedos se tratassem, é cada vez mais certa a certeza de que actualmente se conversa muito, mas fala-se pouco.
As conversas são tantas vezes inócuas, inconclusivas, insípidas, insólidas, ilíquidas, incorrectas, disparatadas, vazias, fechadas, estúpidas e desconexas.
Conversa-se sobre tudo, mas não se fala sobre nada.
Diz-se tanta coisa, mas tanta coisa fica por dizer, é deixada por dizer, propositadamente com o despropósito de esconder, não revelar, proteger uma qualquer estúpida ideia de privacidade, de "só a mim me diz respeito", "ninguém tem nada a ver com isso", e para quê?
Com que finalidade?
Com que propósito viramos costas à significância da palavra, do desabafo, do aconselhamento, do simples partilhar, com vista a um secretismo secular de igreja, que na verdade a única que coisa que faz é isolar, segregar, magoar, e tantas outras anormalidades terminadas em AR.
Somos animais de partilha.
Partilhamos comida, dinheiro, roupa, pensamentos, ideias, personalidades, desejos, interesses e até esses, são mantidos na escuridão.
De que temos afinal medo?
O que receamos ao certo, para, a céu aberto, nos embrenharmos no mais puro deserto de companhia, pelo mais pantanoso lodo de solidão.
Voltando a Madalena.
Voltando a Madalena, tanto se acrescenta ao pensamento que alimenta.
Os dias também passam por ela a correr, também tem conversas em que não fala, mas vive e olha a vida de uma forma atrevida.
Madalena sorri ao acordar, portanto, uma autêntica anormal dirão muitos, mas eu digo que ela sim, a Madalena vive, sonha e acorda feliz, simplesmente porque acordou, porque abriu novamente os olhos e lá fora o sol já aquece novamente, os livros cantam o seu nome em letras de surdina orquestrada e dele não sabe ela mais nada?
Soube.
Soube que se chama Francisco. Que mora na rua paralela à da casa onde trabalha.
Que escreve, ri e conta com uma alegria infantil.
Atenção, quando lhe atribuo essa mesma, alegria infantil, não o faço com o sentido depreciativo que o fazem os tristes que não falam.
Faço-o porque poucas coisas se comparam à alegria virtuosa de uma criança feliz.
Ao sorriso entregue e puro nos olhos de um petiz.
E quem discorda, é tolo ou não sabe o que diz.
Madalena e Francisco falam, conversam, sorriem como duas crianças, observados de perto por cachos de bananas, molhos de agriões, montanhas de laranjas, maçãs e limões, com o tempo contado, mas todo ele tão bem aproveitado, tão dedicado, como um namoro confirmado, que brilha em qualquer lado, sem medo do passado, com o futuro pela frente, sem pensar nele constantemente, assim vivem no presente.
Para quê pensar em mais, enquanto não é tempo de o fazer?
Para quê estragar tudo, com desejos impossíveis, vontades impostas e sonhos delirantes?
Para quê acabar o que pode estar somente a começar?
Para quê conversar sem sequer falar?
Para quando o compromisso para com a verdade, não a dos outros, mas a nossa própria verdade, escavada daquilo a que chamamos de realidade.
- Está na hora Madalena, tens de voltar para cima, diz Francisco com os olhos meio molhados e pensativos de quem se vai ver afastado de tudo o que de maior e melhor tem na vida.
Madalena pestaneja vagarosamente, como vagarosos e revoltados são os passos que dá rua acima, em direcção ao dever, afastando-se do querer, porque é assim que tem de ser.
Por estes dias, Madalena cresceu, amadureceu e tornou-se uma mulher linda, de mãos suaves e pequeninas, dedos finos e desenhados, que com os de Francisco entrelaçados, criam um tricô de felicidade e pureza.
É amor pois com certeza.
Aos 23 anos, Madalena brilha, como nunca antes brilhou, ama, como nunca sonhou, lembra o que para trás já ficou, e sabe que a felicidade chegou.
Francisco espera diariamente pela Deusa que vê descer a rua, brilha num tom que está entre o sol e a lua, olha-a como se a visse a cada dia pela primeira vez, uma e outra vez, sofre com a partida, leva horas a recompor-se, não come se ela não aparece, não adormece sem lhe falar.
Francisco e Madalena sabem bem o que é amar.
Se para sempre é medida tempo, eles não o querem contar.
Dizem: "Que o para sempre seja o tempo, do tempo que o para sempre durar!"
E dizem-no tantas, vezes, muitas delas, falando tão somente com o olhar.
Tem o sonho de casar. De branco, de véu, tem o sonho de ter sonhos que não deixam de a encantar, ver Francisco à sua espera no altar, e esse dia, irá chegar?
Francisco adivinha o seu pensar.
De anéis percebe pouco, precisa de quem o possa orientar.
De sua mãe, Madalena ouve os conselhos preocupados, de quem vê a filha e o namorado, num bairro bem falado, de orgulhos e maledicências.
Para a Madalena só a verdade e não há consequências.
Francisco pede ajuda, mas não sabe nem sequer por onde começar?
De uma coisa tem ele a certeza.
É Madalena.
A pequena está na biblioteca.
Devora livros sem parar.
Tudo graças a Francisco e a todo o seu "maroto" cortejar. 
Se na vida há mais que isto, onde está então escondido, onde se deve procurar?
Dizem que o amor é um livro.
Quantas páginas pode ter?
De que género deve ser?
Em que língua se deve ler?
O amor é lindo em português.
Francisco vai pedir, mas não sabe bem como...
Começa a conversa dizendo...
- Este sou eu Madalena... Sou assim como tu sabes que sou.
- E eu que gosto tanto... desse, deste que tu és Kiko.
Ele diz tudo o resto ao ouvido.
Ela fecha os olhos. Arrepios. Acenos com a cabeça, sorrisos, olhos esbugalhados... olhar já encharcado e estende os abraços para o abraçar.
Um abraço é um beijo desenhado.




 

 
 

8 de março de 2012

Nos olhos de Madalena

Nos andares do pensamento vive o tormento do tentar.
Nas noites de esquecimento chega ver-se no seu olhar.
E só quem sabe o que é ter medo, sabe onde eu quero chegar,
Não é triste o meu pensar, é a dor de não falar.
Escrevo com letras as palavras que penso querer dizer, e acabo por lê-las uma e outra vez sem sequer perceber o que está com elas a acontecer.
Rasgo uma e outra folha.
Mentira.
Não se rasgam folhas a escrever num computador, faz-se delete e retrocede-se com a merda das setinhas...
Há dias em que as setinhas se desorganizam e as palavras se empurram para cima umas das outras e ao encavalitarem-se produzem cacafonias literais de pura violência, de confusão, afinal, como podemos nós ter a pretensão de pensar, que as letras nas palavras não se indignam quando dão origem a uma em detrimento de uma outra!?
As palavras não são estáticas, são móveis, não de pinho, mas de veludo.
A estranheza será tão maior quanto maior for o numero de palavras caminhantes empregues no decorrer de uma conversação, declaração, afirmação, exclamação, indignação e como se diz em espanhol, A lo mejor, é a total confusão.
Gira e volta a girar o carrocel efervescente das ideias de gente e volta a subir pela escada, com a alma já pesada e a vida já tombada, a fiel empregada da família Vasconcellos.
65 anos, a servir desde os 14.
Veio para "a cidade" sozinha, foi posta pela tia no autocarro, que a mãe estava também ela a servir mas numa embaixada na Lapa.
9 horas de viagem e um pão com manteiga depois, chegou finalmente a Lisboa. 
Qual pardal curioso logo se pôs a andar e a perguntar onde poderia a mãe encontrar. Da lapa nunca ouvira falar, da Infante Santo muito menos, da Basílica da Estrela havia ouvido uns senhores falarem de missas na rádio, e sabia que "é assim muito grande e bonita, é a modos que como a paróquia da minha aldeia, mas em muito grande!".
Não sabia muito bem o que fazer com as palavras, quanto mais pensar na complexa complexidade que reside na criação das mesmas palavras.
Há um jogo curioso de palavras que se chama Scrable, que consiste em formar palavras partindo de letras que temos ao dispor, letras essas que se encontram despidas e envergonhadas, esperando ansiosamente poder passar despercebidas, quando finalmente combinadas para formar uma qualquer coisa, que tão pouco lhes interessa.
Ora Madalena pouco percebia de palavras. 
Vinha para Lisboa para fazer camas, passar a ferro, pôr a mesa, levantá-la, limpar o pó, dos livros, com letras, tantas, montes delas.
Madalena não tinhas livros em casa, ou os que tinha, estavam em muito mau sítio, em muito mau estado.
Da escola saiu quando tinha apenas 10 anos, com a 4ª classe. Deu-lhe para aprender a escrever o nome, a fazer contas, o alfabeto, a tabuada, e, e mais nada. Ficou por ali. Também aprendeu o que são seres vivos, animais, plantas, insectos, bla, bla, bla.
No entanto.a
Sempre gostou muito de livros.
Em casa dos Vasconcellos, a parte preferida da sua semana era o momento solene de limpeza da biblioteca.
E não era de todo uma biblioteca qualquer, onde se amontoam livros em prateleiras impessoais, fazendo vizinhos à força pessoas que nunca na vida poderiam sequer tolerar ser vistos juntos, quanto mais partilhar obra numa prateleira.
Era uma espécie de tempo literário, criteriosamente organizado e catalogado na correcta corrente em que cada um se refere, separados por nacionais e internacionais, com prateleiras específicas para autores específicos.
Madalena, depressa se afeiçoou às lombadas, às capas, contracapas, badanas, edições, correcções, ensaios e romances prosaicos.
No entanto, nunca leu sequer uma frase de livro algum.
Dos 14 aos 18, foi povoando a imaginação com a curiosidade, cada vez mais perpetuada na impaciência com que anseia as sextas-feiras. 
Um dia deixou cair um livro do alto de uma prateleira situada ao nível de um 1º andar de um prédio de Lisboa, e ficou para morrer.
Chorou durante toda uma semana pelos cantos. Pobre Madalena, não tem mal pequena, disse-lhe o Drº Vasco em Roupão de Inverno, pijamas e chinelos, é só um livro.
E ela, muito indignada respondeu-lhe:
- Não schenhor dotôr, cada livro é um livro diferente, ninguém sabe a dor que sente o livro, por passar a vida fechado e esmagado contra outros tantos. Como pude eu castigá-lo desta forma, dando-lhe a esperança de ser folheado e escutado por alguém  e depois espeto com ele no chão... Despeça-me se quiser shôtor, que eu não merecho trabalhar aqui.
- Ó Madalena, p'amor de Deus, mas acha que eu a vou despedir por tão pouco, ó messa.
E esta foi para Madalena uma experiência traumática com a Leitura, com as palavras, com as letras.
Irritava-se com o facto de não conseguir de deixar de quase sibilar quando falava, por isso falava pouco. Queria ler depressa e estava sempre a parar na letra que não conseguia juntar à outra, nas duplas consoantes, nas duplas vogais, perdia a paciência e cansava-se muito a fazê-lo.
Por isso, certo dia, desistiu.
No dia que se seguiu ao dia em que Madalena desistiu, Madalena transpirou, tremeu e suspirou.
Sentiu calores onde nunca os tinha, apercebeu-se que recebia no cérebro mensagens de músculos e tendões do corpo que desconhecia sequer que existiam, corou, sorriu, baixou os olhos, pensou que ia morrer.
Foi no mercado da fruta.
Foi buscar Morangos, Bananas, Laranjas, Limões, 1 Ananás, e cerejas, e na espera desassossegada na fila da banca onde comprava a fruta, conheceu-o.
Ele estava apreensivo, olhava, mas nada via, trauteava palavras engalfinhadas em desalinho, socorria-se dos olhos para encontrar novamente o caminho, e deu por si perdido dos olhos e encontrado no cheiro dos cabelos de Madalena.
Parou, voltou, sorriu, limpou as mãos transpiradas às calças e estendeu amavelmente a mão na sua direcção.
- Bom dia. 
- Ela estendeu a mão de volta ainda sem olhar bem, mas parou a mão do caminho quando o olhou nos olhos. Tinha verde na cor dos olhos, falava com letras e letras aos molhos.
- Olá Madalena.
Como sabia ele o seu nome? Teria seguido o seu caminho? Pode sempre ser seu vizinho.
Sacos de plástico para um lado, moedas e notas para o outro, soltam-se palavras entre contas e pesam-se bananas e morangos entre perguntas pelos meninos e pelos patrões.
Adeus menina Madalena, diz a Rosa Maria.
Ele ali está, encostado à florista. Abismado. Encantado. Ela é simplesmente, deliciosa.
Cabelos soltos deixando ver o pescoço, olhos verdes de um mar inatingível e de uma sinceridade surpreendente e nos lábios o sorriso de Deus.
Ela pára e ele fala-lhe, de livro na mão esquerda.
E ela fica aqui, no livro.
Ele continua a trautear os aglomerados cacafónicos que para ela não são mais do que isso mesmo, enquanto ela fixo os olhos que mais parecem dois Kiwis cortados pela metade, sumarentos, sequiosos, sedentos de curiosidade.
Ele repara que os olhos dela estão bem mais longe do que julgava e repara, tal não é a discrição de Madalena, que ela segue lentamente o livro com os olhos como um animal segue um pedaço de comida.
Decide divertir-se com o inusitado interesse de Madalena no livro que mantém ainda firme na mão esquerda, lentamente faz subir a mão até ao queixo e observa aquela cabecinha a girar até marcar novamente o encontro que desejava com os Kiwis, com os olhos.
Param.
Ele pergunta-lhe o que tem o livro de especial?
Letras diz ela, tantas, em tantas formas diferentes...
Queres que te leia algumas perguntou, e ela sorriu.
E aqui o romantismo de todo o cenário que para trás ficou, leva-nos a pensar que realmente ele lhe contou uma história, leu, ensinou-a a ler, e um dia casaram-se e foram felizes para sempre, e tiveram um exército de filhos a correr pela casa e a desenhar hipopótamos nas paredes da sala com cera de velas, as vermelhas do natal.
Ou então.
A mente de cada um permitirá criar todo um desenlace deste clímax na história.
Quanto a mim, ele não diz absolutamente nada do que no livro está escrito.
Disfarça o nervosismo que a responsabilidade do momento transporta. 
Afinal, está perante uma linda, maravilhosa, deliciosa, pura e casta Deusa e isso provoca-lhe um quase colapso nervoso. Ao fingir que está a ler, tem na verdade tempo para construir um enredo de continuidade que obrigue a que tenham de começar a encontrar-se novamente, às escondidas, nos "retiros" que a profissão permite que tenha, nas deslocações quase diárias à mercearia, ao mercado, aos correios.
Aos comentários das vizinhas, das outras empregadas internas de outras famílias abastadas, envoltas em reboliços e cegadas, tramóias orquestradas, suspeitas bem fundadas.
Não havia amor serviçal que não terminasse ora a bem ora a mal.
E Madalena? Que fez ela afinal?
Escutou atenta as palavras que queria.
Sonhou, sentiu e viveu-o de novo no nascer de mais outro dia.
Sabia de cor que não ouvia as palavras escritas.
Mas escutava apaixonada o amor nas leituras bem ditas!
Não dormia, pensava em dizer tudo o que sentia. Pensava nele a todas as horas do dia, pensava em amor fora da mercearia.
Mas afinal que amor era esse que Madalena perseguia?
Calmo, louco, esforçado, encantado, dedicado, lendo e recitando o que foi toda a noite ensaiado, pobre coitado.
Esperas um beijo que seja e não há beijo que se veja.
E o dia demora mas acaba por chegar, ela beija-o uma e outra vez e o saco da fruta ao lado a esperar.
E sentados num banco lá vão dando descanso merecido ao amor, é de letras que se fala quando histórias se contam no coração do escritor.
E a mãe que ela começou por procurar?
Faltou-me dizer que o embaixador para o qual a mãe estava interna a trabalhar, era o pai do rapaz que Madalena estava a namorar.
E dizem que o amor não se diverte quando anda connosco a brincar.
Pois não.
Basta vê-lo a dançar!