8 de março de 2012

Nos olhos de Madalena

Nos andares do pensamento vive o tormento do tentar.
Nas noites de esquecimento chega ver-se no seu olhar.
E só quem sabe o que é ter medo, sabe onde eu quero chegar,
Não é triste o meu pensar, é a dor de não falar.
Escrevo com letras as palavras que penso querer dizer, e acabo por lê-las uma e outra vez sem sequer perceber o que está com elas a acontecer.
Rasgo uma e outra folha.
Mentira.
Não se rasgam folhas a escrever num computador, faz-se delete e retrocede-se com a merda das setinhas...
Há dias em que as setinhas se desorganizam e as palavras se empurram para cima umas das outras e ao encavalitarem-se produzem cacafonias literais de pura violência, de confusão, afinal, como podemos nós ter a pretensão de pensar, que as letras nas palavras não se indignam quando dão origem a uma em detrimento de uma outra!?
As palavras não são estáticas, são móveis, não de pinho, mas de veludo.
A estranheza será tão maior quanto maior for o numero de palavras caminhantes empregues no decorrer de uma conversação, declaração, afirmação, exclamação, indignação e como se diz em espanhol, A lo mejor, é a total confusão.
Gira e volta a girar o carrocel efervescente das ideias de gente e volta a subir pela escada, com a alma já pesada e a vida já tombada, a fiel empregada da família Vasconcellos.
65 anos, a servir desde os 14.
Veio para "a cidade" sozinha, foi posta pela tia no autocarro, que a mãe estava também ela a servir mas numa embaixada na Lapa.
9 horas de viagem e um pão com manteiga depois, chegou finalmente a Lisboa. 
Qual pardal curioso logo se pôs a andar e a perguntar onde poderia a mãe encontrar. Da lapa nunca ouvira falar, da Infante Santo muito menos, da Basílica da Estrela havia ouvido uns senhores falarem de missas na rádio, e sabia que "é assim muito grande e bonita, é a modos que como a paróquia da minha aldeia, mas em muito grande!".
Não sabia muito bem o que fazer com as palavras, quanto mais pensar na complexa complexidade que reside na criação das mesmas palavras.
Há um jogo curioso de palavras que se chama Scrable, que consiste em formar palavras partindo de letras que temos ao dispor, letras essas que se encontram despidas e envergonhadas, esperando ansiosamente poder passar despercebidas, quando finalmente combinadas para formar uma qualquer coisa, que tão pouco lhes interessa.
Ora Madalena pouco percebia de palavras. 
Vinha para Lisboa para fazer camas, passar a ferro, pôr a mesa, levantá-la, limpar o pó, dos livros, com letras, tantas, montes delas.
Madalena não tinhas livros em casa, ou os que tinha, estavam em muito mau sítio, em muito mau estado.
Da escola saiu quando tinha apenas 10 anos, com a 4ª classe. Deu-lhe para aprender a escrever o nome, a fazer contas, o alfabeto, a tabuada, e, e mais nada. Ficou por ali. Também aprendeu o que são seres vivos, animais, plantas, insectos, bla, bla, bla.
No entanto.a
Sempre gostou muito de livros.
Em casa dos Vasconcellos, a parte preferida da sua semana era o momento solene de limpeza da biblioteca.
E não era de todo uma biblioteca qualquer, onde se amontoam livros em prateleiras impessoais, fazendo vizinhos à força pessoas que nunca na vida poderiam sequer tolerar ser vistos juntos, quanto mais partilhar obra numa prateleira.
Era uma espécie de tempo literário, criteriosamente organizado e catalogado na correcta corrente em que cada um se refere, separados por nacionais e internacionais, com prateleiras específicas para autores específicos.
Madalena, depressa se afeiçoou às lombadas, às capas, contracapas, badanas, edições, correcções, ensaios e romances prosaicos.
No entanto, nunca leu sequer uma frase de livro algum.
Dos 14 aos 18, foi povoando a imaginação com a curiosidade, cada vez mais perpetuada na impaciência com que anseia as sextas-feiras. 
Um dia deixou cair um livro do alto de uma prateleira situada ao nível de um 1º andar de um prédio de Lisboa, e ficou para morrer.
Chorou durante toda uma semana pelos cantos. Pobre Madalena, não tem mal pequena, disse-lhe o Drº Vasco em Roupão de Inverno, pijamas e chinelos, é só um livro.
E ela, muito indignada respondeu-lhe:
- Não schenhor dotôr, cada livro é um livro diferente, ninguém sabe a dor que sente o livro, por passar a vida fechado e esmagado contra outros tantos. Como pude eu castigá-lo desta forma, dando-lhe a esperança de ser folheado e escutado por alguém  e depois espeto com ele no chão... Despeça-me se quiser shôtor, que eu não merecho trabalhar aqui.
- Ó Madalena, p'amor de Deus, mas acha que eu a vou despedir por tão pouco, ó messa.
E esta foi para Madalena uma experiência traumática com a Leitura, com as palavras, com as letras.
Irritava-se com o facto de não conseguir de deixar de quase sibilar quando falava, por isso falava pouco. Queria ler depressa e estava sempre a parar na letra que não conseguia juntar à outra, nas duplas consoantes, nas duplas vogais, perdia a paciência e cansava-se muito a fazê-lo.
Por isso, certo dia, desistiu.
No dia que se seguiu ao dia em que Madalena desistiu, Madalena transpirou, tremeu e suspirou.
Sentiu calores onde nunca os tinha, apercebeu-se que recebia no cérebro mensagens de músculos e tendões do corpo que desconhecia sequer que existiam, corou, sorriu, baixou os olhos, pensou que ia morrer.
Foi no mercado da fruta.
Foi buscar Morangos, Bananas, Laranjas, Limões, 1 Ananás, e cerejas, e na espera desassossegada na fila da banca onde comprava a fruta, conheceu-o.
Ele estava apreensivo, olhava, mas nada via, trauteava palavras engalfinhadas em desalinho, socorria-se dos olhos para encontrar novamente o caminho, e deu por si perdido dos olhos e encontrado no cheiro dos cabelos de Madalena.
Parou, voltou, sorriu, limpou as mãos transpiradas às calças e estendeu amavelmente a mão na sua direcção.
- Bom dia. 
- Ela estendeu a mão de volta ainda sem olhar bem, mas parou a mão do caminho quando o olhou nos olhos. Tinha verde na cor dos olhos, falava com letras e letras aos molhos.
- Olá Madalena.
Como sabia ele o seu nome? Teria seguido o seu caminho? Pode sempre ser seu vizinho.
Sacos de plástico para um lado, moedas e notas para o outro, soltam-se palavras entre contas e pesam-se bananas e morangos entre perguntas pelos meninos e pelos patrões.
Adeus menina Madalena, diz a Rosa Maria.
Ele ali está, encostado à florista. Abismado. Encantado. Ela é simplesmente, deliciosa.
Cabelos soltos deixando ver o pescoço, olhos verdes de um mar inatingível e de uma sinceridade surpreendente e nos lábios o sorriso de Deus.
Ela pára e ele fala-lhe, de livro na mão esquerda.
E ela fica aqui, no livro.
Ele continua a trautear os aglomerados cacafónicos que para ela não são mais do que isso mesmo, enquanto ela fixo os olhos que mais parecem dois Kiwis cortados pela metade, sumarentos, sequiosos, sedentos de curiosidade.
Ele repara que os olhos dela estão bem mais longe do que julgava e repara, tal não é a discrição de Madalena, que ela segue lentamente o livro com os olhos como um animal segue um pedaço de comida.
Decide divertir-se com o inusitado interesse de Madalena no livro que mantém ainda firme na mão esquerda, lentamente faz subir a mão até ao queixo e observa aquela cabecinha a girar até marcar novamente o encontro que desejava com os Kiwis, com os olhos.
Param.
Ele pergunta-lhe o que tem o livro de especial?
Letras diz ela, tantas, em tantas formas diferentes...
Queres que te leia algumas perguntou, e ela sorriu.
E aqui o romantismo de todo o cenário que para trás ficou, leva-nos a pensar que realmente ele lhe contou uma história, leu, ensinou-a a ler, e um dia casaram-se e foram felizes para sempre, e tiveram um exército de filhos a correr pela casa e a desenhar hipopótamos nas paredes da sala com cera de velas, as vermelhas do natal.
Ou então.
A mente de cada um permitirá criar todo um desenlace deste clímax na história.
Quanto a mim, ele não diz absolutamente nada do que no livro está escrito.
Disfarça o nervosismo que a responsabilidade do momento transporta. 
Afinal, está perante uma linda, maravilhosa, deliciosa, pura e casta Deusa e isso provoca-lhe um quase colapso nervoso. Ao fingir que está a ler, tem na verdade tempo para construir um enredo de continuidade que obrigue a que tenham de começar a encontrar-se novamente, às escondidas, nos "retiros" que a profissão permite que tenha, nas deslocações quase diárias à mercearia, ao mercado, aos correios.
Aos comentários das vizinhas, das outras empregadas internas de outras famílias abastadas, envoltas em reboliços e cegadas, tramóias orquestradas, suspeitas bem fundadas.
Não havia amor serviçal que não terminasse ora a bem ora a mal.
E Madalena? Que fez ela afinal?
Escutou atenta as palavras que queria.
Sonhou, sentiu e viveu-o de novo no nascer de mais outro dia.
Sabia de cor que não ouvia as palavras escritas.
Mas escutava apaixonada o amor nas leituras bem ditas!
Não dormia, pensava em dizer tudo o que sentia. Pensava nele a todas as horas do dia, pensava em amor fora da mercearia.
Mas afinal que amor era esse que Madalena perseguia?
Calmo, louco, esforçado, encantado, dedicado, lendo e recitando o que foi toda a noite ensaiado, pobre coitado.
Esperas um beijo que seja e não há beijo que se veja.
E o dia demora mas acaba por chegar, ela beija-o uma e outra vez e o saco da fruta ao lado a esperar.
E sentados num banco lá vão dando descanso merecido ao amor, é de letras que se fala quando histórias se contam no coração do escritor.
E a mãe que ela começou por procurar?
Faltou-me dizer que o embaixador para o qual a mãe estava interna a trabalhar, era o pai do rapaz que Madalena estava a namorar.
E dizem que o amor não se diverte quando anda connosco a brincar.
Pois não.
Basta vê-lo a dançar!

4 de março de 2012

Nem sei bem como explicar

Gosto de ir do geral para o particular.
Do que abrange para o que pormenoriza.
Do colectivo para o individual.
Do todo para o ainda maior.
E porquê?
Porque me movo por entre o círculo da humanidade, e o mais belo que a mesma tem, é que é composta por cerca de 7 mil milhões de individualidades, redundandemente únicas.
Ao longo dos últimos meses tenho sido por diversas e tão fantásticas vezes surpreendido, pelo poder da autenticidade, da simplicidade dos processos e sobretudo da resistência humana, que cada vez mais se me aparece sobre a forma tentada e conseguida de uma menina "pequenina" de cabelos negros e constantemente em crescimento, numa demonstração cabal do espírito de coragem, sacrifício, luta e preseverança, mas sobretudo pela capacidade de reinvenção, pela capacidade de sorrir genuinamente, tão genuína quanto a quantidade industrial de parvoíce que eu mesmo digo em curtos sessenta minutos, curtos porque haveria tanta mais parvoíce passível de ser utilizada, mas que permanece secretamente guardada, para momentos mais parvos ou para momentos em que seja de facto necessário e urgente ser parvo, bem parvo!
Deixem-me que vos apoquente com um simples, mas complexo retrato de uma pessoa, que se vai reinventando, mostrando, libertando, lutando, resistindo.
Vou dar-lhe um nome aleatório, pode ser.... Rita.
A Rita é sem dúvida uma pessoa como há já poucas nesta vida cada vez menos vivida.
A Rita passou por muito recentemente.
Muito mais do que se possa imaginar.
Muito mais do que eu quero aqui contar.
Muito mais do que muitos de nós conseguiriam aguentar.
Muito mais do ela podia e devia esperar.
E foi ao fundo, claro que foi.
No lugar dela teria ido bem mais fundo que o fundo.
Teria tido bem mais medo que vontade, bem mais temor que saudade, preso e amarrado à minha infiel liberdade.
Já a conhecia há mais tempo, mas não há tanto tempo, quanto o tempo que o tempo tem.
O tempo dela esteve parado e talvez ainda esteja um pouco, mas ninguém pedirá que o acelere, ninguém.
Ela hoje deita-se sem pensar no acordar.
Acorda sem pensar no deitar.
Sendo que pelo meio tem de frasear, almoçar, lanchar, procurar, encurtar, esclarecer, informar, noticiar, colocar, retirar, treinar, suar, dançar, saltar, pular, limpar, secar, arrumar, sair, chegar, jantar, deitar e PENSAR!
E outra coisa ela não faz a não ser pensar.
Normal, quem não pensaria!?
Mas a RITA é, para além de um pensamento constante de si mesma, para mim, uma inspiração.
É luz e curiosamente, tal como a luz, também a RITA ilumina, qual candeeiro de secretária, com voz imaginária, que te protege de noite e de dia, e que bela companhia...
Por vezes na vida somos movidos por... sei lá o quê...
Por coisas inexplicáveis.
Sensações irreproduzíveis, irrepetíveis, únicas e que não servem para serem analisadas e dissecadas, mas sim, para serem vividas e colocadas num plano superior ao racionalismo (pouco, tão pouco e tão cada vez menos) humano.
Senti algo que me empurrou para o seu caminho.
Para o seu percurso.
Percurso, que como ela diz e eu bem sei, não se adivinha simples, antes pelo contrário.
Mas tenho de o dizer, confesso-me diariamente surpreendido por alguém que é do "tamanho do que vê e não do tamanho da sua altura", por alguém que me prende com palavras ou com a total ausência delas.
Senti-me tal e qual as baleias, comunicadoras existenciais, numa forma tão perfeita como mística e sobrenatural.
É, de facto é isso mesmo, é capaz de ser exactamente isso que me liga a ti RITA, qualquer coisa de tão bonito e puro que desmancha o pensamento racional, que atravessa o espectro triunfal da amizade ocasional.
Não, não mesmo, de todo!
Estou aqui.
E estarei.
Preocupo-me e para sempre o farei, porque o que me move é maior do que consigo sequer pesar, é mais complexo do que posso explicar, faltam-me palavras...
Rídiculo.
Aspirante a escrever o que quer que seja e ficas sem palavras.
Levou-as o vento?
Não.
Não preciso nem tento.
Basta-me o que tenho guardado em mim, bem dentro.
Aprendo contigo e tento ensinar-te também.
Que na vida poucas coisas existas que superem um sorriso rasgado, docemente provocado e saborosamente largado.
Disseste-me:
"Boa viagem até à (nossa) Lapa. E DESCANSA! Por favor! Se não conseguires. Escreve!"
E hoje para além de rir... fizeste-me chorar. Tinha os olhos sujos, precisava de os lavar. 
Escrevo-te porque quero, porque gosto e porque sim.
Escrevo-te porque no fundo é isso que faz o Martim!
Fala, diz, conta, escreve.
Tenta, chega, sorri, é breve.
Fugaz é o sorriso, mas ele não o deixa morrer,
Repito e reforço a sorrir, não vou, não irei, não quero nem saber.
Estou aqui para te dizer.
És um caso sério RITA.
E agora já quase dormitando sobre o assunto, tenho tempo, sento-me e pergunto:
Serei capaz de te ajudar?
Não sei.
Sei sim que vale(s) bem o suposto "esforço de tentar".
Como pode ser um esforço, o que se faz sem pestanejar?
Não sei bem e em boa verdade o digo.
Nem sequer o consigo imaginar.
Para sorrir vontade, alguém tem de se esforçar?
É sorrir e toca a andar.
Contigo passa-se o mesmo RITA!
Não recuo nem irei recuar, seja como for, vais ter de me aturar.
Pobre de ti que ainda acabas por te fartar.
Ninguém merece um palerma, com tantas letras para juntar.
E porque hoje me disseste que era uma honra fazeres parte de um projecto que conta com um trabalho meu...
Me elevo e atrevo a deixar para ti, mais uma pequena parte de mim:
"Quero pensar e adormecer, sem ter nada que temer, quero dizer a viva voz, sou maior que o que desejo. 
Ter coragem de querer, ter a força de viver, para ver o surreal, tomar forma e ser formado, por um ser que não tem parecer, uma força incansável, que me pega e me arrasta, me levanta e não diz BASTA, sou quem sou e sei que posso."

E tu? Podes?
Sei que sim e que consegues.
Em ti?
Orgulho?
Por ti?
Carinho, muito!
Para ti?
O mundo, é pequeno eu bem sei, mas olha foi o melhor que arranjei.



3 de março de 2012

Deus nem sempre é tão amigo assim

Boa noite senhor Deus.    
Na verdade, não faço a mais rotunda ideia do que Lhe passará pela cabeça, ou melhor, reconheço que seja difícil manter um elevado nível de concentração para alguém que é TUDO, para alguém que tem no pensamento uma fita de todos os pensares e pensadores do universo.
Ser TUDO e estar em TODO O LADO, não pode ser pêra doce (e o quanto eu queria utilizar esta mui nobre e popular expressão portuguesa).
Ser Deus trará logo à partida um contrato, todo ele escrito em letras muito, muito pequeninas, e só em páginas deve ter toda uma floresta amazónica.
No entanto, o Rapaz sabia ao que ia, com certeza que ninguém pensa que Ele chega a Deus assim como quem dá cá aquela palha.
Se assim fosse, qualquer um era Deus, e isso não dá bom resultado, basta ver como está a Grécia.
E ainda dizemos nós que isto aqui está mal, mas nós ao menos a quem reportar, seja em que situação for, eles, pobres coitados, para cada mal têm um Deus diferente, mais se parece com o El Corte Inglés do que com qualquer outra coisa. 
Estou bêbado que nem um cacho, vai, chama o do Vinho, sofri um desgosto de amor, chama a da especialidade, ai que vamos ter problemas com toda a gente que está à nossa volta, é turcos, gregos, cipriotas, albaneses, macedónios, búlgaros, líbios (de barco sempre em frente), egípcios (também de barco, sempre a descer), italianos (só para chatear, também de barco, mas para cima e para a esquerda, mas é pertinho), toda uma variedade de gente que gosta deles como o diabo da cruz.
Ainda nos queixamos nós.
Sim, temos os espanhóis, eu sei, e os marroquinos, e o Alberto João, mas seria bem pior ser grego, digo eu, em grego e baixinho...
Ora, os deuses daquela gente nunca se cansam, e isso coloca todos os restantes professantes de uma religião monoteísta numa abjecta e suposta desvantagem... vantajosa.
Ora o que se passa é, nós, filhos de um Deus maior, mais vasto e utilizando um termo que habilmente subtraio à Alexandra Solnado, o nosso Deus tem bem mais do que 2 km, tenha paciência.
Às vezes dá a sensação que Deus abandonou este mundo há muito, muito tempo atrás, que pura e simplesmente fez a trouxa, desamarrou o burro e pôs-se a... não sei bem como é que Ele se faz transportar, deve ter um Deus mobile, ou anda em cima das nuvens, ou então, não faz nenhuma das duas... Pura e simplesmente tele-transporta-se para onde precisa de estar.
Passeio de mansinho pelas ruas cheias de sol e de uma luminosidade apaixonante, é Lisboa, é assim, é sempre assim quando está sol em Lisboa, e tem estado tanto.
Por estes dias, cheira já ao fim do Inverno e as árvores voltam a cochichar de uma ponta para outra no jardim da Estrela.
Da chuva falou-se hoje.
Por estes dias Portugal parece viver sobre uma espécie de nuvem, assente num gás levitante que o suspende de tudo o que são mudanças, exigências, medidas, transformações, alterações estratégicas, contribuições, aumentos, cortes, costuras, remendos.
No entanto há sempre brilho em Lisboa, há sempre sol na Madragoa, e aquela gaivota que voa, tão perto, tão baixo, junto ao chão onde chora o menino que a mãe assoa com Amor.
São três horas e mais metade, assim diz o relógio já exausto na Avenida da Liberdade, desce e chega-se ao Rossio, já cheira, já brilha, já bate, lá em baixo, a Lisboa do seu rio.
As terças, com roupa de sábado, são o fim-de-semana na bagunça dos dias dos outros.
É o melhor dos dias, o sábado, com sol, em Lisboa e sem sono.
Ando, subo, desço, mãos nos bolsos, casaco apertado, passo encantado e sinto-me no caminhar vagaroso da minha gestão temporal.
Esfrego as mãos, sopro-lhes para ver se aquecem, estás fria Lisboa, e sozinha, deixaram-te ao abandono porque não estás nem nunca estiveste para grandes Carnavais.
Se há coisa que aprecio em ti é a tua sinceridade, és o que és, és o que mostras, dás o que tens (a mais também não és obrigada, diga-se de passagem), encantas os que te olham e deixas saudade nos que te viram as costas.
Mas não fugindo do que aqui me trouxe.
Deus.
Nem sempre És tão amigo assim.
Nem sempre Estás onde dizem que Estás, Vais onde dizem que Foste, Fazes o que dizem que Fizeste, Salvas como dizem que Salvaste.
Nesses momentos todos, em que sofro e vejo sofrer, em que morro e vejo aos outros a alma a desaparecer, onde estás Tu?
Onde te escondes?
Já sei. Vais dizer que Tens muita coisa para fazer, muita coisa na cabeça e passas os dias preocupado, assustado, alarmado, sem tempo sequer para dormir, ou descansar!
E eu digo desde já, que isso é mentira!
Não sei se Te tiraram ou não os subsídios, se estás no fundo de desemprego, se estás desempregado, mas há pouco tempo...
Pessoalmente acho que será este o caso.
Deus = Desempregado de curta duração!
Ora então, temos de aprimorar esses CV's, para ver se Te arranjamos qualquer coisa, nem que seja um part-time mixuruca, só para não estares tanto tempo sem fazer nada, que isso não é vida para ninguém, e "fachavor" vamos a ser proactivos, que nos dias de hoje se não Fores empreendorista, não te safas.
Ora, posto isto, pode até manter-se a tese de que Deus é omipotente, omnipresente, omni sei lá mais o quê, mas de certo que nem sempre é tão amigo assim de todos nós.
E falha muitas vezes, ou melhor não falha, simplesmente não aparece, esconde-se atrás das nuvens, que com aquele tamanhão todo é impossível desaparecer-se assim.
Assim, e continuando o périplo, apenas me apraz dizer que, apesar de continuarmos a utilizar constantemente, o "Deus nos guarde; Deus nos acuda; Por amor de Deus; Ai Deus seja louvado; Com a graça de Deus; Até amanhã, se Deus quiser; O futuro a Deus pertence..."
Ele tem tantas vezes bem mais que fazer.
Provavelmente andará em torneios de futebol com os deuses gregos, que também devem andar bem longe daquelas paragens.
Sou egoísta e quero um Deus que me ajude?
E depois?
Que mal tem isso?
Vem ao mundo alguma epidemia? Agrava-se a crise? Baixa o rating da minha dívida?
Que nada!
"Continuarão a existir noites de lua cheia, a serra de Sintra e o Tejo vai continuar a correr para o mar!"
No fundo não faço mais que todos os outros e faço seguramente mais do que quem nada faz.
Falo, queixo-me, peço, exijo, reclamo, mas sigo para casa, todos os dias pela mesma estrada, e porquê?
É mais perto.
É mais rápido.
E não é assim em tudo na nossa vida?
Acho que quero gostar de pensar, que há superioridade na parte desta entidade superior a tudo o que é mundano.
Mas se vivo em Portugal, numa democracia exemplar, porque não posso exercer os meus direitos e bramir veementemente argumentos contra um Deus que parece mais não ser do que um Deus das pequenas coisas... e as outras?
E o teu filho?
Está bonito isto, ai está, está.
Está de greve?
Está de baixa?
Trabalha na CP?
Já percebi... Deixa, já vi tudo!
É jovem, está desempregado, e não sabe sequer se passa dos 33...
Diz-Lhe que tenha cuidado com as companhias.
Atenciosamente,
Martim Mariano
Ai Lisboa, vês ao que tenho de me sujeitar?
Já tu, a ti, nada te parece incomodar.
Estás meio mosca morta, meio adormecida...
Acorda que isso que vives não é vida, é passeio!