4 de março de 2012

Nem sei bem como explicar

Gosto de ir do geral para o particular.
Do que abrange para o que pormenoriza.
Do colectivo para o individual.
Do todo para o ainda maior.
E porquê?
Porque me movo por entre o círculo da humanidade, e o mais belo que a mesma tem, é que é composta por cerca de 7 mil milhões de individualidades, redundandemente únicas.
Ao longo dos últimos meses tenho sido por diversas e tão fantásticas vezes surpreendido, pelo poder da autenticidade, da simplicidade dos processos e sobretudo da resistência humana, que cada vez mais se me aparece sobre a forma tentada e conseguida de uma menina "pequenina" de cabelos negros e constantemente em crescimento, numa demonstração cabal do espírito de coragem, sacrifício, luta e preseverança, mas sobretudo pela capacidade de reinvenção, pela capacidade de sorrir genuinamente, tão genuína quanto a quantidade industrial de parvoíce que eu mesmo digo em curtos sessenta minutos, curtos porque haveria tanta mais parvoíce passível de ser utilizada, mas que permanece secretamente guardada, para momentos mais parvos ou para momentos em que seja de facto necessário e urgente ser parvo, bem parvo!
Deixem-me que vos apoquente com um simples, mas complexo retrato de uma pessoa, que se vai reinventando, mostrando, libertando, lutando, resistindo.
Vou dar-lhe um nome aleatório, pode ser.... Rita.
A Rita é sem dúvida uma pessoa como há já poucas nesta vida cada vez menos vivida.
A Rita passou por muito recentemente.
Muito mais do que se possa imaginar.
Muito mais do que eu quero aqui contar.
Muito mais do que muitos de nós conseguiriam aguentar.
Muito mais do ela podia e devia esperar.
E foi ao fundo, claro que foi.
No lugar dela teria ido bem mais fundo que o fundo.
Teria tido bem mais medo que vontade, bem mais temor que saudade, preso e amarrado à minha infiel liberdade.
Já a conhecia há mais tempo, mas não há tanto tempo, quanto o tempo que o tempo tem.
O tempo dela esteve parado e talvez ainda esteja um pouco, mas ninguém pedirá que o acelere, ninguém.
Ela hoje deita-se sem pensar no acordar.
Acorda sem pensar no deitar.
Sendo que pelo meio tem de frasear, almoçar, lanchar, procurar, encurtar, esclarecer, informar, noticiar, colocar, retirar, treinar, suar, dançar, saltar, pular, limpar, secar, arrumar, sair, chegar, jantar, deitar e PENSAR!
E outra coisa ela não faz a não ser pensar.
Normal, quem não pensaria!?
Mas a RITA é, para além de um pensamento constante de si mesma, para mim, uma inspiração.
É luz e curiosamente, tal como a luz, também a RITA ilumina, qual candeeiro de secretária, com voz imaginária, que te protege de noite e de dia, e que bela companhia...
Por vezes na vida somos movidos por... sei lá o quê...
Por coisas inexplicáveis.
Sensações irreproduzíveis, irrepetíveis, únicas e que não servem para serem analisadas e dissecadas, mas sim, para serem vividas e colocadas num plano superior ao racionalismo (pouco, tão pouco e tão cada vez menos) humano.
Senti algo que me empurrou para o seu caminho.
Para o seu percurso.
Percurso, que como ela diz e eu bem sei, não se adivinha simples, antes pelo contrário.
Mas tenho de o dizer, confesso-me diariamente surpreendido por alguém que é do "tamanho do que vê e não do tamanho da sua altura", por alguém que me prende com palavras ou com a total ausência delas.
Senti-me tal e qual as baleias, comunicadoras existenciais, numa forma tão perfeita como mística e sobrenatural.
É, de facto é isso mesmo, é capaz de ser exactamente isso que me liga a ti RITA, qualquer coisa de tão bonito e puro que desmancha o pensamento racional, que atravessa o espectro triunfal da amizade ocasional.
Não, não mesmo, de todo!
Estou aqui.
E estarei.
Preocupo-me e para sempre o farei, porque o que me move é maior do que consigo sequer pesar, é mais complexo do que posso explicar, faltam-me palavras...
Rídiculo.
Aspirante a escrever o que quer que seja e ficas sem palavras.
Levou-as o vento?
Não.
Não preciso nem tento.
Basta-me o que tenho guardado em mim, bem dentro.
Aprendo contigo e tento ensinar-te também.
Que na vida poucas coisas existas que superem um sorriso rasgado, docemente provocado e saborosamente largado.
Disseste-me:
"Boa viagem até à (nossa) Lapa. E DESCANSA! Por favor! Se não conseguires. Escreve!"
E hoje para além de rir... fizeste-me chorar. Tinha os olhos sujos, precisava de os lavar. 
Escrevo-te porque quero, porque gosto e porque sim.
Escrevo-te porque no fundo é isso que faz o Martim!
Fala, diz, conta, escreve.
Tenta, chega, sorri, é breve.
Fugaz é o sorriso, mas ele não o deixa morrer,
Repito e reforço a sorrir, não vou, não irei, não quero nem saber.
Estou aqui para te dizer.
És um caso sério RITA.
E agora já quase dormitando sobre o assunto, tenho tempo, sento-me e pergunto:
Serei capaz de te ajudar?
Não sei.
Sei sim que vale(s) bem o suposto "esforço de tentar".
Como pode ser um esforço, o que se faz sem pestanejar?
Não sei bem e em boa verdade o digo.
Nem sequer o consigo imaginar.
Para sorrir vontade, alguém tem de se esforçar?
É sorrir e toca a andar.
Contigo passa-se o mesmo RITA!
Não recuo nem irei recuar, seja como for, vais ter de me aturar.
Pobre de ti que ainda acabas por te fartar.
Ninguém merece um palerma, com tantas letras para juntar.
E porque hoje me disseste que era uma honra fazeres parte de um projecto que conta com um trabalho meu...
Me elevo e atrevo a deixar para ti, mais uma pequena parte de mim:
"Quero pensar e adormecer, sem ter nada que temer, quero dizer a viva voz, sou maior que o que desejo. 
Ter coragem de querer, ter a força de viver, para ver o surreal, tomar forma e ser formado, por um ser que não tem parecer, uma força incansável, que me pega e me arrasta, me levanta e não diz BASTA, sou quem sou e sei que posso."

E tu? Podes?
Sei que sim e que consegues.
Em ti?
Orgulho?
Por ti?
Carinho, muito!
Para ti?
O mundo, é pequeno eu bem sei, mas olha foi o melhor que arranjei.



3 de março de 2012

Deus nem sempre é tão amigo assim

Boa noite senhor Deus.    
Na verdade, não faço a mais rotunda ideia do que Lhe passará pela cabeça, ou melhor, reconheço que seja difícil manter um elevado nível de concentração para alguém que é TUDO, para alguém que tem no pensamento uma fita de todos os pensares e pensadores do universo.
Ser TUDO e estar em TODO O LADO, não pode ser pêra doce (e o quanto eu queria utilizar esta mui nobre e popular expressão portuguesa).
Ser Deus trará logo à partida um contrato, todo ele escrito em letras muito, muito pequeninas, e só em páginas deve ter toda uma floresta amazónica.
No entanto, o Rapaz sabia ao que ia, com certeza que ninguém pensa que Ele chega a Deus assim como quem dá cá aquela palha.
Se assim fosse, qualquer um era Deus, e isso não dá bom resultado, basta ver como está a Grécia.
E ainda dizemos nós que isto aqui está mal, mas nós ao menos a quem reportar, seja em que situação for, eles, pobres coitados, para cada mal têm um Deus diferente, mais se parece com o El Corte Inglés do que com qualquer outra coisa. 
Estou bêbado que nem um cacho, vai, chama o do Vinho, sofri um desgosto de amor, chama a da especialidade, ai que vamos ter problemas com toda a gente que está à nossa volta, é turcos, gregos, cipriotas, albaneses, macedónios, búlgaros, líbios (de barco sempre em frente), egípcios (também de barco, sempre a descer), italianos (só para chatear, também de barco, mas para cima e para a esquerda, mas é pertinho), toda uma variedade de gente que gosta deles como o diabo da cruz.
Ainda nos queixamos nós.
Sim, temos os espanhóis, eu sei, e os marroquinos, e o Alberto João, mas seria bem pior ser grego, digo eu, em grego e baixinho...
Ora, os deuses daquela gente nunca se cansam, e isso coloca todos os restantes professantes de uma religião monoteísta numa abjecta e suposta desvantagem... vantajosa.
Ora o que se passa é, nós, filhos de um Deus maior, mais vasto e utilizando um termo que habilmente subtraio à Alexandra Solnado, o nosso Deus tem bem mais do que 2 km, tenha paciência.
Às vezes dá a sensação que Deus abandonou este mundo há muito, muito tempo atrás, que pura e simplesmente fez a trouxa, desamarrou o burro e pôs-se a... não sei bem como é que Ele se faz transportar, deve ter um Deus mobile, ou anda em cima das nuvens, ou então, não faz nenhuma das duas... Pura e simplesmente tele-transporta-se para onde precisa de estar.
Passeio de mansinho pelas ruas cheias de sol e de uma luminosidade apaixonante, é Lisboa, é assim, é sempre assim quando está sol em Lisboa, e tem estado tanto.
Por estes dias, cheira já ao fim do Inverno e as árvores voltam a cochichar de uma ponta para outra no jardim da Estrela.
Da chuva falou-se hoje.
Por estes dias Portugal parece viver sobre uma espécie de nuvem, assente num gás levitante que o suspende de tudo o que são mudanças, exigências, medidas, transformações, alterações estratégicas, contribuições, aumentos, cortes, costuras, remendos.
No entanto há sempre brilho em Lisboa, há sempre sol na Madragoa, e aquela gaivota que voa, tão perto, tão baixo, junto ao chão onde chora o menino que a mãe assoa com Amor.
São três horas e mais metade, assim diz o relógio já exausto na Avenida da Liberdade, desce e chega-se ao Rossio, já cheira, já brilha, já bate, lá em baixo, a Lisboa do seu rio.
As terças, com roupa de sábado, são o fim-de-semana na bagunça dos dias dos outros.
É o melhor dos dias, o sábado, com sol, em Lisboa e sem sono.
Ando, subo, desço, mãos nos bolsos, casaco apertado, passo encantado e sinto-me no caminhar vagaroso da minha gestão temporal.
Esfrego as mãos, sopro-lhes para ver se aquecem, estás fria Lisboa, e sozinha, deixaram-te ao abandono porque não estás nem nunca estiveste para grandes Carnavais.
Se há coisa que aprecio em ti é a tua sinceridade, és o que és, és o que mostras, dás o que tens (a mais também não és obrigada, diga-se de passagem), encantas os que te olham e deixas saudade nos que te viram as costas.
Mas não fugindo do que aqui me trouxe.
Deus.
Nem sempre És tão amigo assim.
Nem sempre Estás onde dizem que Estás, Vais onde dizem que Foste, Fazes o que dizem que Fizeste, Salvas como dizem que Salvaste.
Nesses momentos todos, em que sofro e vejo sofrer, em que morro e vejo aos outros a alma a desaparecer, onde estás Tu?
Onde te escondes?
Já sei. Vais dizer que Tens muita coisa para fazer, muita coisa na cabeça e passas os dias preocupado, assustado, alarmado, sem tempo sequer para dormir, ou descansar!
E eu digo desde já, que isso é mentira!
Não sei se Te tiraram ou não os subsídios, se estás no fundo de desemprego, se estás desempregado, mas há pouco tempo...
Pessoalmente acho que será este o caso.
Deus = Desempregado de curta duração!
Ora então, temos de aprimorar esses CV's, para ver se Te arranjamos qualquer coisa, nem que seja um part-time mixuruca, só para não estares tanto tempo sem fazer nada, que isso não é vida para ninguém, e "fachavor" vamos a ser proactivos, que nos dias de hoje se não Fores empreendorista, não te safas.
Ora, posto isto, pode até manter-se a tese de que Deus é omipotente, omnipresente, omni sei lá mais o quê, mas de certo que nem sempre é tão amigo assim de todos nós.
E falha muitas vezes, ou melhor não falha, simplesmente não aparece, esconde-se atrás das nuvens, que com aquele tamanhão todo é impossível desaparecer-se assim.
Assim, e continuando o périplo, apenas me apraz dizer que, apesar de continuarmos a utilizar constantemente, o "Deus nos guarde; Deus nos acuda; Por amor de Deus; Ai Deus seja louvado; Com a graça de Deus; Até amanhã, se Deus quiser; O futuro a Deus pertence..."
Ele tem tantas vezes bem mais que fazer.
Provavelmente andará em torneios de futebol com os deuses gregos, que também devem andar bem longe daquelas paragens.
Sou egoísta e quero um Deus que me ajude?
E depois?
Que mal tem isso?
Vem ao mundo alguma epidemia? Agrava-se a crise? Baixa o rating da minha dívida?
Que nada!
"Continuarão a existir noites de lua cheia, a serra de Sintra e o Tejo vai continuar a correr para o mar!"
No fundo não faço mais que todos os outros e faço seguramente mais do que quem nada faz.
Falo, queixo-me, peço, exijo, reclamo, mas sigo para casa, todos os dias pela mesma estrada, e porquê?
É mais perto.
É mais rápido.
E não é assim em tudo na nossa vida?
Acho que quero gostar de pensar, que há superioridade na parte desta entidade superior a tudo o que é mundano.
Mas se vivo em Portugal, numa democracia exemplar, porque não posso exercer os meus direitos e bramir veementemente argumentos contra um Deus que parece mais não ser do que um Deus das pequenas coisas... e as outras?
E o teu filho?
Está bonito isto, ai está, está.
Está de greve?
Está de baixa?
Trabalha na CP?
Já percebi... Deixa, já vi tudo!
É jovem, está desempregado, e não sabe sequer se passa dos 33...
Diz-Lhe que tenha cuidado com as companhias.
Atenciosamente,
Martim Mariano
Ai Lisboa, vês ao que tenho de me sujeitar?
Já tu, a ti, nada te parece incomodar.
Estás meio mosca morta, meio adormecida...
Acorda que isso que vives não é vida, é passeio!









17 de fevereiro de 2012

Invulgar.. vulgaridade

Transpiras que nem uma maratonista, cheiras a doce e a cansaço ao mesmo tempo, emanas por ti acima um odor forte e activo, teu, até assim cheiras bem, ou mesmo que por ti abaixo escorram gotículas perversas de uma humanidade tão real, não chegas nunca a estar suja, assim te vejo no jardim do meu pensar.
Tens as maçãs do rosto rosadas do esforço que acabaste de fazer.
As mãos, poisadas esforçadamente em cima dos joelhos, ajudam o teu corpo a não se desmanchar num amontoado de peças de um puzzle desfigurado!
E gosto tanto de ti assim. Cansada e acabada de correr.
E quando acordas despenteada, com o cabelo levantado de um lado, os olhos quase colados e ainda adormecidos da violência do regresso ao mundo real e não deixas de ser a mais bela mulher que a eternidade alguma vez conseguiu enviar à Terra.
Mesmo na vulgaridade do quotidiano tens a invulgar autenticidade que faz de ti um ser único.
E por ser assim é que sei.
Tenho a nítida sensação de que na verdade todos somos invulgares até na vulgaridade, todos somos geniais dentro da estupidez, todos somos capazes de ser admirados mesmo quando erramos e nos espetamos e espalhamos, com as mãos atrás das costas e com força suficiente para partir um dente ou dois, ou abrir a cabeça que também uma coisa bonita de se ver.
Dizia que tenho a nítida sensação de que o ser humano, na sua especial capacidade de lixar tudo o que de bonito e belo está à sua volta consegue surpreender o seu semelhante a cada nova acção que desencadeia, seja qual for a natureza da mesma.
Esta imprevisibilidade própria da descoberta e do risco, faz com que nos admiremos, espantemos, choquemos, amemos, odiemos, e nos lembremos de cada um daqueles que nos tocam por motivos tão inacreditavelmente diferentes.
Quanto mais tiras ao outro para guardares para ti, maior é a lembrança futura que terás do que viveste com ele. 
Tiras o que gostas, o que não gostas, o que queres e o que não queres. Quantas e tantas vezes tiras sem saber que o estás propriamente a fazer.
Tantas.
Quantas vezes tiraste sabendo que estavas a armazenar para um dia lá voltar?
Pensaste que se o dia chegasse e não te soubesses lembrar, isso sim era triste e isso não, não podias tolerar.
E é assim que fazes.
Vives, aproveitas, acordas e deitas, guardas, tiras, dás, dás mais do que tiras, deitas e viras e quem dá vai e tira e assim fazes.
E um dia dás por ti a recordar aqui e ali, como e onde, quando e porquê, com quem e em quê, mais tudo o que por lá se vê.
E no meio de tudo o que lembras e os sorrisos que saem e as lágrimas que caem, contas horas já contadas de vidas já passadas e de sonhos lá vividos. E como é bom ter memória.
Se não é de memória que fazemos a nossa vida, a nossa profissão, o nosso pensar e querer, amar e viver, então de que é?
Somos a matéria viva e expressa do sentimento que nos atravessa.
Caminhamos rumo a algo e vamos progredindo com base na segurança que nos traz o passado que para trás fica, construímos a vida pela vida fora e o que para trás fica, tantas vezes nos acompanha, mesmo quando se vai embora.
Somos únicos e encantadoramente singulares, numa proporção que só nós mesmos podemos e devemos ter.
Devemos ser os maiores conhecedores das nossas vulgares invulgaridades, e sobretudo da nossa vulgaridade invulgar, essa sim, verdadeira mensageira da autenticidade e genialidade do ser.
Considera, relembra, guarda, mantém, fala, escreve, liga, diz, conta, deixa ir, cala-te, escuta, desaparece e aparece quando a espera menos espera.
Mas sobretudo faz um compromisso com a lembrança e não te deixes esquecer.
Faz por não seres esquecido.
Torna-te tantas vezes lembrado, quão aberto for o sorriso.
E tu, tu podes continuar despenteada, transpirada e desmaquilhada, que na vida nunca haverá nada que supere a força e a beleza de uns olhos que querem ver a vida não vivida.
Não é pois de miopia que se trata.
Mas sim do quanto se dá e quanto se gasta.
Quantas vezes conseguem os olhos olhar daquela forma tão... única?
Quantas?
Os olhos cansam-se de olhar? Ou cansam-se de tentar?
É possível que alguém se canse? Ou que deixe de tentar, de procurar, de encontrar, de acertar e falhar, haverá algum dia em que se diga, chega!?
O cérebro não chega a todo o lado, ou pelo menos não temos consciência de até onde é que ele consegue alcançar, logo não temos a percepção do que lhe pode escapar, e pode acontecer que lhe escape, o pobre coitado tem tanto em que pensar.
É por isso mesmo que cada vez mais, conta mais contigo, confia mais em ti, conhece-te melhor.
Vai viver sozinho. 
Passa noites calado, completamente calado e sem abrir a boca durante 5 horas.
Entretém-te, cativa-te, fortalece-te e lembra-te, lembra-te sempre e para sempre, lembrando-te saberás sempre quem foste, de onde vieste, quem conheceste, com quem estiveste, o que aprendeste, no que te tornaste, para onde queres ir e até onde já chegaste.
É pouco, ou achas que ainda não fizeste que baste?
Quando levantas o olho por cima do ombro, vês metade do que queres ver e a outra metade imaginas, fantasias, crias e inventas um cenário de possibilidade que te possa inicialmente parecer adverso, mas potencialmente contornável.
E só o fazes, porque sabes quem és, e o que queres ou não ver e enfrentar, e sobretudo como e quando é que o vais fazer.
Quando as mãos te tremem e falham, e a boca se seca e não se quer abrir, sentes o medo entrar-te inicialmente pelo estômago, quando ele de resto já te apanhou de raspão há horas.
Nesses instantes, tens-te a ti mesmo, e ou te encontras, ou... já sabes, não já?
Sem medos. 
Enfrenta as situações em que não és mais do que o pouco que és, no imenso em que vives, mas não deixes que essas sejam menos que invulgares vulgaridades, no mundo das liberdades e dos pensares recordados, recorda, lembra-te e carrega contigo quem queres levar para a estrada.
Horas contadas, histórias passadas e vidas cruzadas em estradas, desenhadas por quem nos permite assim chegar a cada novo encontrar.
Tens mesmo a certeza que dá para parar de olhar?