20 de janeiro de 2012

Dá a mão a mim. Não foi sempre assim?

Leve e leviana é a pena, que reclama para si a mesma sagacidade dos mestres de espada em riste, sem saber de resto o que existe e deixa a alma serena.
Mas a poesia da vida é bem mais do que a intenção de brincar com as palavras, do que a dedicação às histórias passadas, do que sonhos em luares de cristal.
Os confrontos aparecem-me com a regularidade de um qualquer "bom dia".
As provações sucedem-se à velocidade assustadora dos irreflectidos pestanejares, que à razão de 16 horas de olho aberto num dia, se aproximam dos 11500 piscares de olhos, é muita fruta e acima de tudo são provas a mais para uma pessoa só.
O sono foi-se novamente.
Fico sozinho, mas nunca indiferente ao que pensa a gente da gente que pensa por Ela.
Ao que pensa a gente, da gente que se vê da janela.
E é assim uma vista tão bela?
Não sei mais o que fazer.
Não sei de verdade.
Quero saber a idade da felicidade que insiste em me abandonar.
Quero saber a cidade, para onde esta se foi instalar.
Não há na vida mais nada, que a luz escura da noite cerrada, encantando os bosques da tristeza.
Não será por amor ou surpresa, que se mantém a vida acesa, apegada a aparas de cera.
São velas que apontam o caminho, o meu faz-se caminhando e sozinho, é noite, está frio e estou só, e de mim que ninguém tenha dó.
Levanto-me já cada vez menos, porque caminho já meio sem saber, erguido por pernas que tais, que tornam os meus passos banais, mostrando-me já cada vez menos.
Será que somos quem seremos?
Basta os olhos levantar, basta o beijo de um olhar, para poder alcançar tudo o que não tenho, e por entre os dedos frágeis deixo escorregar.
Não sei o que mais hei-de tentar, não sei com quem mais falar, não vejo, nem tão pouco consigo pensar, para onde me estás tu a levar?
Há dias em que quero acreditar, que um dia vais tu pensar, que tudo não chegou a passar de um capricho entregue ao teu tentar.
Não vejo o dia a chegar, não quero nem o posso forçar.
É tempo de ver o tempo que tenho.
Hummm, restam-me anos e anos de EXISTIR, não sabendo o que está para vir e não fazendo a mais pequena ideia do que está para me calhar. E a ti? E de ti? O que posso eu esperar?
Não sabes?
Não saber é fácil. Não saber é tão mais fácil.
Não saber é simples.
Não saber é... exactamente isso, não saber, nem de perto nem de longe se aproxima do NÃO QUERER SABER! 
Conceitos forçosamente distintos, mas ambos ávidos e famintos de resposta.
Tens uma? Tens mais do que uma?! Certíssimo. Ora então, podes começar a falar.
Dizes que não tens nada a explicar!? Que cómoda a expressão no teu olhar e eu sem conseguir sequer pensar.
Não sei mais o que hei-de inventar se à mente apenas me chegas em forma de sorrisos e alegria perene.
Se me olhas como pessoas que olham os quadros que querem entender e não conseguem, se me falas, não te calas, se ao dormir te deitas e pensas que sabes que sabes, mas no fundo talvez não saibas de todo, será este o mundo em que vivo? 
Será este o tempo, do Eu, Tu, Nós, Vós e Eles, e ainda os outros todos?
Para onde partem os olhos que olham para mim?
Para onde voam os sorrisos que sorriem assim?
Na dor se descobre calor em noites de Inverno.
Na flor se encostam os sonhos de um tempo mais que perfeito.
E a chuva que olha e não molha e sabe que sim, que o nome da rosa é em prosa e não em ouro ou marfim, que o pátio está molhado, o chão foi lavado com o suor do que sinto por ti. 
É tua a alma que se encosta em mim, estranho e confuso me deito, e sinto a tua mão no meu peito, e lá tento adormecer por fim.
Maria, Francisca, Joana, Afonso, Miguel e Inês, nomes do jeito que gostas, queres que os diga outra vez?
Digo o que sinto e estou preso, ao um, ao dois e ao três, mas não deixo nunca de dizer, que o amar soa tão melhor em português.
Sei que paras para pensar, se foi aqui que de facto quiseste chegar...
Direi o que tiver de dizer, só para te fazer perceber, que de facto estás a errar, mas quem sou eu afinal, porque falo eu destas coisas? O que me faz não deixar de acreditar?
Sei bem onde quero eu chegar.
Mas deixa-me
Mantenho-me imóvel. Assim talvez doa de uma forma mais ligeira.
Já sei onde queria chegar.
Parava para te aconselhar e dizia...
Sei o que a vida te está a tentar mostrar, não sei se sabes sequer o caminho que deves tu tomar, para poderes por fim encontrar o teu pedaço de firme chão.
Fecha os olhos.
Não tenhas medo. Eu estou aqui.  Estou sempre aqui. Para onde poderia eu ter ido?
Dá a mão a mim. Não foi sempre assim?
Foi e haverá de ser.
Porque a vida tem tanto para ver.
Porque não hei-de eu querer acordar?
Só quero poder caminhar, não só, mas por ti acompanhado.
Perdido mas contigo ao lado, sonhando um dia de cada vez.
É bonito e até um pouco burguês.
Mas não importa, é de facto como digo, tem bem mais encanto em português, será essa a língua que Deus fez, para que eu queira, e volte a querer, uma e outra e mais uma vez?

19 de janeiro de 2012

30 ANOS... Farias e fazes tu

30 anos.
Hoje assinala-se o 30º aniversário do teu nascimento meu amigo.
Mesmo sabendo que não o cumpres entre todos os que te amam, te adoram, os que sentem a tua falta, os que tiveram a felicidade de acompanhar os 21 que cumpriste neste mundo, vão hoje, uma vez mais, reunir-se para assinalar simbolicamente o dia em que cumpririas os teus 30 anos.
E que festa que seria hoje...
Que festa.
É um dia estranho sabes!?
É um dia em que vem à mente tanta coisa, em que tanta coisa lhe foge, em que tanto se recorda e transborda aos olhos a maior das sensações nostálgicas, a SAUDADE.
Entorpecem-se os dedos, manietados por um sentimento doloroso, sim, é ainda doloroso pensar em tudo e no nada que se seguiu ao dia em que o teu espírito partiu.
E já passaram 8 anos, 8 anos!!!!
É tanto tempo e é um tempo sem tempo, e que nem o tempo que lhe falta lhe traz o que ele não tem.
É um tempo que se funde com a lembrança e com o esquecimento.
Sou honesto e digo-te hoje que nem todos os dias me lembro de ti.
Nem todos os dias me lembro das coisas que a teu lado vivi, logo eu que jurei que nunca iria esquecer.
Quem me pode culpar a mim, amigo, se levo a vida a viver, e tantas vezes de ti, de mim, do mundo me acabo por esquecer?!
Ficam para sempre todas as recordações, as lembranças, os teus olhos, bolas, que força tinham os teus olhos, que carregavam tantas vezes os teus sonhos, os teus medos, as tuas fraquezas e os teus segredos.
Penso que é primeira vez que conscientemente te escrevo e te trago de volta ao meu imaginário, que tento perpetuar uma lembrança feliz, num tempo que não o é tanto assim.
Tinha tantas coisas para te contar, mas tantas!!
Mas continuo sem saber como te falar, não te posso escrever, não te posso ligar, nem um mail sequer consigo enviar.. Esse sítio para onde foste é uma bela merda, isso sim!
Espero que te conforte saberes que, hoje, uma vez mais, nos vamos todos juntar no Manel para te honrarmos e celebrarmos a tua pessoa que não foge de dentro de nós, de dentro de quem, tantos anos depois continua a relembrar-te com todo o carinho que nos mereces.
Um dia voltaremos a conversar meu amigo.
Deixámos toda uma vida de conversas a meio, ou mesmo por começar, não sei Belé, não sei como escrever, não sei como te falar, não sei como te ver, nem como me lembrar, não sei mais nada!
Só sei que o que sabia e deixei de saber, se transformou em letargia crua, em sensação de nada com recheio de coisa nenhuma.
Estarei eu perdido de todo? Terei eu bebido do teu VNENO?
Estarás tu zangado?
Sentir-te-ás tu ignorado? Desprezado? Abandonado?
Estarás tu em todos nós, em todo o lado?
Não sei meu amigo.
Acredito que és maior que muitos do que cá ficaram, que nada disseram, nada fizeram, não ajudaram, não sentiram, não olharam.
Acima de tudo quero terminar este acumular de confusão literária, com o mais importante neste teu dia.
Parabéns meu querido irmão!
Muitos Parabéns.

Miguel Ângelo Nascimento Henriques - 1982-2003



16 de janeiro de 2012

Esquecer.. Como fazer? O Miguel ajuda!

"Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz?
Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar.
Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre.
Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas!
É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar.
A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência.
O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada.
Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste.
Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos.
Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se.
Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo.
Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma.
A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo.
É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção.
Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."
Diz tudo isto um grande navegador literário, um homem que escreve com a violência própria de quem sabe do que fala, Miguel Esteves Cardoso.
Miguel, permita-me desde já que o trate por tu, porque sem dúvida que vem facilitar todo o sistema de comunicação.
Ora dizia eu, Miguel, que este texto que humilde e tão descaradamente retirei de um qualquer lado de uma rede social, é na verdade, bastante verdadeiro, cru, sincero, e traduz na imediata sensação ocular uma felicidade enorme, na medida em que há um sentimento de pertença a uma dor, possibilita-me de facto abrir a janela da cave e ver para além dos pés dos outros.
Na verdade Miguel, o sofrimento desgosto e penoso de quem sofre e quer esquecer é tanto maior quanto maior é o AMOR que se guarda no peito.
E o que dizes tu quando alguém não quer esquecer?
Não quer deixar de amar!?
Não quer deixar de sentir saudades!?
Não quer aceitar que acabou!?
De facto tudo o que atrás referiste é pertinente e tão clichezado que se torna incontornável.
Dizem-nos sempre: "Ai homem, tens é que te divertir, tens é de sair e pensar que, às vezes, fecha-se uma porta e abre-se uma janela."
Mas isto não é tão simples quanto isto.
E te digo Miguel, que mesmo no final do teu pensar, há algo que me deixa a divagar, isto é, sugeres que "(...) se deixe correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."
Miguel, o que fazer se o coração não se cansar de todo? O que deve o homem fazer para por o coração a fazer gelo, a ver se lhe passa o hematoma?
Haverá algum problema em ficarmos com alguém para sempre dentro de nós?
Consegues aclarar a imagética?
De facto há ensinamentos que advêm dessa experiência traumática.
Aprendemos sobretudo uma coisa, única e fundamental.
Somos quem somos.
Somos o que vivemos, o que amamos e o que sofremos.
E somos com toda a certeza bem mais, depois de passarmos pelo túnel de escuridão e penúria que passa quem é forçado a esquecer, ou quem tem esse desejo, ou quem simplesmente fica órfão de um sentimento desproporcional à proporção de homem que tem em si.
No masculino porque sou um deles.
E porque não sei como sofre uma mulher.
Sei como se ama uma mulher.
Sei como se recorda.
Sei como se sonha.
Sei como se nega toda a vontade de querer tudo o que sei.
Mas não sei se quero saber mais do que aquilo que sei e aprendi.
Talvez me reste apenas acatar o teu último dito, "esperar que o coração se canse".
Obrigado Miguel, de qualquer forma é sempre um prazer ler da fúria dos teus dedos!
É sempre um prazer saber o que pensas e pensar no que sabes.