14 de janeiro de 2012

Das noites.. para os dias!

Cresce do vento a esperança fresca da manhã, de um novo e revigorado suceder de horas, acontecimentos, realidades, reais adversidades, responsabilidades e seu contrário.
Da avenida de sempre vem o burburinho sussurrado das árvores, que anunciam a chegada do dia. Ele aí está. Um, e mais outro. E... mais outro, na sucessão dos dias e dias que se seguem.
Chegam cedo logo depois das noites quentes e frias, mais escuras e sombrias, depende sempre, não se sabe bem de quê, é o que se percebe do que de pouco se vê.
São agora 06h15, Ele desce a rua calmamente, mãos nos bolsos, com luvas de cabedal, grossas, quentes, negras como o alcatrão, ásperas do uso, das longas e épicas, titânicas batalhas contra o frio, a chuva, o vento, os bolsos, o calça e descalça frenético, o poisa aqui e poisa ali e volta a calçar, caiem ao chão, apanha, tem de sacudi-las uma e outra vez, fazendo-as embater violentamente uma contra a outra, sem qualquer demonstração de respeito, afecto, carinho para quem por ele dá a cara à luta.
Continua rua abaixo em direcção ao carro.
Pensarão já mal do gajo, só pelas luvas e porque vai trabalhar de carro?
Que mal tem isso?
Não pode ter um carro porque é um molestador de luvas de cabedal negras como o alcatrão?
E quem é que disse que ele tinha um carro?
Não falei em carro nenhum...
Ele caminhava rua abaixo em direcção ao carro, não existe aqui nenhum elemento que permita concluir que o carro é dele, a não ser que ele tire a chave do bolso quando chegar à porta do mesmo.
Passa ao lado do carro e segue para a paragem. 
(A pensarem mal do homem que bate nas luvas, se calhar agora é crime bater em objectos inanimados, que só servem para proteger as mãozinhas do menino do frio que lhe causa gretas nos intervalos dos dedos.)
Está frio, está bastante frio, e sei isso porque estou na rua, do outro lado da rua, a ver, a olhar, a pensar se me vou deitar ou levantar.
Tem luvas mas não tem cachecol, nem um daqueles gorros todos sopimpas que tapam as orelhinhas, ou daquelas camisolas de gola alta, na, nada disso.
Tem simplesmente o casaco frágil e justo ao corpo, que aparenta verdadeiros problemas de credibilidade e afirmação perante a intempérie e que o torna de tal moda frágil que chega a dar pena. 
E o que vai aquele homem fazer às 06h30 da manhã?
Pergunto eu que estou para aqui sentado, sem saber o que vou fazer, limitando-me a observar e... assim faço correr o tempo e descanso os pés que me doem de uma forma indescritível. Frio. Que frio. Escolheste bem o calçado, valha-te isso, palerma.
E ele ali está, vai para mais de 10 minutos, trauteia uma esquisitice qualquer, não percebo o que diz, está do outro lado da avenida e aqui chega-me apenas em formato de murmúrio tímido e codificado. 
Penso cá para comigo: "Que é que estás a fazer pá? Olha bem para ti, tu não és certo, não podes ser, desculpa mas não podes ser, e não digas que és porque isto só mostra que não és.
Não tens nada melhor para fazer do que estar para aqui a olhar para aquele atrasado, o Par de Luvas com um homem agarrado, acorda e vai para casa.
E eu lá vou.
Esqueço o Par de Luvas com um homem agarrado por uns momentos e sigo. Para casa. Acho.
Chego a casa e lembro-me dele, não vou dizer outra vez, não me apetece escrever outra vez aquilo.
Mas passa-me.
Que interessa saber mais da vida dele? 
Poderá sequer existir um objectivo por trás dessa curiosidade sombria?
Não interessa. Sento-me a rever as fotografias, eternas melodias da lembrança que cantam aos olhos de quem as tira.
Sabem bem.
O Par de Luvas? Encontro-o amanhã pela manhã cedo, ou perto do anoitecer da despedida, na descida da rua, a caminho do carro, que parece não ser dele, e o mundo não acaba, e do outro sei pouco ou quase nada.
Quero fazer mais e bem melhor.
Amanhã talvez não venha vê-lo ao deitar, ou ao levantar, tenho de parar de andar.
Não venho por certo.
Antes ficar assim, mas sem ver, imaginando o anoitecer irrepetível e disperso, maravilhoso e controverso, como a escrita de um verso que se pode revelar sofrível.
Deito as linhas à ponta dos dedos, converso com o teclado e percebo que as frases são extensões directas do pensamento, será que o Par de Luvas tem medo?
A simbiose poética do acontecimento com o prévio pensamento do mesmo é, por si só, motivo mais que suficiente para se adorar a sequência dos entardeceres, a conversa das árvores pela noite dentro na avenida vazia, o acordar em burburinho da cidade.
Não há como não admirar a realidade, nem como tirar os olhos dela!

11 de janeiro de 2012

Austeridade, palavra do ano 2011

Austero: que revela austeridade; rígido nos princípios, hábitos ou opiniões.
Que não é flexível; rigoroso, severo.

Que revela circunspecção ou formalidade; sério, grave.

Desagradável para os sentidos; áspero, ríspido.

Que exige esforço; duro, penoso.

Sem enfeites ou ornamentos.
Do latim austēru-, «rude; áspero».
Ora aí está. Todo um quadro de positivismo, boa energia, alegria e sabor numa só palavra, ou será talvez mais correcto chamá-la de palavrão?
Diz o Banco de Portugal que "a economia vai contrair-se ainda mais do que era previsto em 2012", ora isto será então o mesmo que dizer que 2012 vai ser um ano ainda mais desagradável para os sentidos, sem grandes enfeites ou ornamentos e que vai exigir ainda mais esforço. Vai ser portanto um ano ainda mais duro e penoso do que era suposto, que bom que podemos saber isso, quando contamos com apenas 10 dias de 2012.
Estamos portanto na presença de factos novos, factos esses que constituem um desenvolvimento sério e grave, que vai claramente traduzir-se num castigo duro e severo nas vidas de quem sempre é punido nestas alturas, o povo.
Portanto, vamos lá então a fazer contas:
Ora vamos ter então de "apertar o cinto", ai essa bela expressão do pobre e para o pobre.
E agora? Se não formos rígidos nos princípios e não nos mantivermos rispidamente fiéis às nossas crenças, opiniões e convicções, e se não restringirmos os maus hábitos, vamos certamente sofrer as consequências por parte de quem não é flexível na imposição da ordem comum, assim torna-se necessário o ser rigoroso e severo e no trato, terá forçosamente de se apresentar com enorme circunspecção e superior dose de formalidade para ser credível quanto baste.
É isto!

5 de janeiro de 2012

A demora... e a vida lá fora!

    Caminhando na solidão solitária das noites, percebeu que a percepção das coisas é tão real quanto real é a ideia do que somos, e do que queremos conseguir ser.
Na verdade não o percebeu totalmente sozinho, nem foi apenas na aquela noite.
Começou a perceber que as coisas se tinham vindo a tornar sorrateiramente mais compreensíveis, que se esgueiraram pela sombra e conseguiram acordar já mais translúcidas, objectivamente capazes de ser alguma coisa, no verdadeiro sentido da coisa.
    O acordar deixa de ser penoso, deixa de ser o tormento vagaroso e pestilento que até então preenchia os minutos iniciais do abandono do sono profundo, para passar a ser uma "coisa" meio indefinida, uma "coisa" não tangível, não alcançável, não é bem uma coisa, mas sim uma "coisa" mais ou menos estranha, que se entranha, que se enraíza e entrelaça nas fundações da alma e vive cada vez mais forte no clarear dos dias.
Percebe que as convicções se moldam em meses, que as certezas desaparecem, mas só às vezes, que as ideias se transformam em sonhos e que é bom conseguir sonhar sem lágrimas.
Sair de cena é tantas vezes prejudicial quantas mais é recuperador.
     Decide viajar, vai passar uns dias fora com uns amigos, e com amigos dos amigos.
E é de comer e chorar por mais.
Rir, chorar a rir, ver os outros a rir, fazer rir, rir mais, que bem que sabe!
E assim ele redescobre o mundo que escondeu dentro da gaveta dos acessórios de verão.
Chega a casa e percebe que sair do recinto onde luta todos os dias, lhe confere uma perspectiva diferente das coisas.
Estar fora implica olhar para algo que está física e realmente distante. 
Está lá, e agora estou aqui, é a conclusão a que chega, e sabe-lhe bem.
     Olha para os tormentos como olha para os papéis. Olha para a tristeza enquanto escolhe a sobremesa.
Ora, em que pensa ele? 
Em... viver.
E que pensamentos açambarca alguém que pensa em viver, quando está longe?
Que é capaz, que consegue, que tem força, que vai voltar e vai viver melhor?
Não sei e ele também não me responde.
     Sabe que acorda e se deita, dia após dia e gosta.
Sabe que sente e que deseja, que acorda e que se deita, que vive e gosta.
E não é bom sentir o doce beijar da liberdade do pensar?
E não é bom acordar e caminhar com a leveza de quem dança, com a doçura de um cantar, com a frescura no olhar, acordar e deitar, sentir e desejar e de tudo isto gostar?
É bom e é para aproveitar.
É para agarrar.
É para não largar.
     2012 cheira ainda às camisolas novas, tem uma certa leveza no caminhar que faz com que tudo pareça ainda tão belo, um outro melhor bom dia.
Cresce a passo largo, como se caminhasse para o comboio que por si não espera.
Está grande e desenvolto, o homem que parecia moço e que agora sobe na hierarquia.
Está atento e pensante, qual escritor inconstante que se atormenta com a apatia.
Sabe o que quer e sabe-o bem, escuta o seu nome no pensamento, é o seu nome que chamam, o seu e o de mais ninguém.
Feliz a curiosidade que matou o gato.
Mais gatos vieram.
Mais perguntas fizeram.
Mais verdades chegaram.
Mais ideias lançaram.
Mais respostas tiveram.
Gato escaldado de água fria tem medo.
Um gato molhado, um pensamento acabado, uma ideia, um segredo.
No futuro reside o temor, no escuro está o calor, de pensar que é por amor, que a vontade decresce e aumenta.
     Sei o meu nome e basta, nesta Natureza nefasta, basta repeti-lo para mim.
As letras junto e baralho, não sou apenas mais um paspalho, honra esta a de ser O Martim
Porquê?
Não há mais ninguém assim!
Esvazia-se o copo como se esvazia a lua.
A noite é minha e é tua, a pobre coitada está nua sem nada que a tape.
Como é incerta esta rua, onde a saudade se situa e chama por mim.
É verdade. 
É a grandeza da saudade.
Desculpa agora não posso falar.
Estou a trabalhar. A criar. A falar. A ditar. A ensinar. A espreitar. A respirar. 
Se eu não chego, quem vais chamar em meu lugar?
Duvido que alguém o consiga ocupar.
Não há nada como tentar.
Duvido que vá resultar.
Já disse que sou o Martim?
De repente podia ter-me passado ao lado e nada disto fazia sentido.
Até soa bem no ouvido, quando estou um bocado perdido e não me lembro de mim.

(Martim escreve de acordo com a grafia antiga. Já basta quando é obrigado)