26 de dezembro de 2011

Não sei se vou, mas sei que tenho

Há, na derivação caótica da realidade, um pedaço de terra que não tem mais de pouco tamanho, e que serve os interesses de quem nele assenta.
Na pior das hipóteses incomoda quem lá passa, mas não, é de uma pacatez e de uma segurança deliciosas, de uma simplicidade de processos apaixonante e acima de tudo muito bem localizada o que é sempre bom e dá jeito quando se quer fugir ao trânsito.
Há dias que mais parecem noites brancas.
Há dias que de dias começam por ter pouco ou quase nada, há dias loucos em que a boca já só quer ficar calada.
Há dias que rapidamente se transformam em lixo tóxico e corrosivo e que te esganam, que te sufocam e mordem os calcanhares.
Esses dias são, contudo, necessários, dias em que reflectes ao deitar, dias em que passas por tudo e nada passa por ti.
Dias em que chorar não é dizer Eu desisti.
Sobram sempre partes a esses dias.
Partes essas que mais não são do que os momentos em que bloqueias, em que paras e ali ficas, em que pensas e não acreditas, em que sentes e não evitas, em que choras mas não gritas, em que sofres e eu não quero que permitas.
Somos patins de roda desapertada.
Somos aquela bola velha e estragada.
Somos o que pensamos, o que vimos e o que dizemos, somos o que pagamos, o que comemos e o que bebemos, somos o que nos dizem que somos, o que pensamos que somos, e o que gostam que sejamos. Somos ou não somos?
Não sei se fomos.
Não sei.
E hoje voltei a não saber, e começa a ser demais, e começa a irritar-me, e chega.
E o frio que está?
E a janela que não sabe como se tapar?
E o cheiro que tem o morto a dançar?
E a dor que demora a passar?
E com ela? 
Não fui.
Não sei.
Não sei se fomos.
Foi natal. 
Foi a noites das noites sem sal, foi noite de alegria e pobreza, foi noite noite de sorte e tristeza, foi noite de conversa com frases contadas ao cêntimo.
E quem te olha e te vê e fala e pergunta, e sabe e pergunta e não sabe e pergunta, e não pergunta mas fala, e fala mas conta, e conta que fala que não sabe e... pergunta.
Não há o que não valha para tudo pensar, 
não importa a muralha que tenha de trepar, 
já não sei nem sabia a importância do ser,
já não é mais preciso acabei de perceber.

Suave a melodia tímida que ecoa nos teus olhos e canta alegre a canção que hoje viu.
É fácil dizer tanta coisa, é difícil dizer tudo, é um privilégio "começar numa ponta e acabar na outra", um privilégio com trágico destino, a confusão de sinceridade e verdade, com crueldade e maldade.
Na outra realidade, aquela do pedaço de terra pouco maior do que uma coisa pequena, é que somos quem de facto somos, e somos amados e adorados por tudo aquilo que fazemos, tudo, o visível e o invisível, o palpável e o abstracto, a palavra e a ausência dela, pelo sorriso e pela lágrima, pelo elogio e pela crítica.
Lá para esses lado, a condição é a seguinte, somos um todo assegurado e não um pedaço amarfanhado, parece difícil de imaginar, eu sei, parece verdadeiramente complicado de enquadrar a praticabilidade da ideia, mas com o tempo chega-se lá.
Debagarzinho, mas bai.
Agora, tudo isto depende de um coisa fundamental, vontade.
Sem vontade, não há projecto, sem projecto não há construção, sem tudo isto, não há rumo, e perder o rumo resulta numa situação potencialmente muito complicada.
Os brasileiros têm uma "máxima", que segundo costa diz o seguinte: "Cara, tudo se resolve!"
E no fundo, não deixa de ter um fundo de verdade, quanto mais não seja no plano da análise fria e objectiva, há um problema, que vai ser então resolvido.
Porém, há de tudo um pouco no que a problemas compete.
Ora com tudo isto quase me esquecia do importante.
Há anos inesquecíveis e anos de esquecer, mas há sobretudo anos que para recordar pouco ou nada têm, mas que são para nunca mais esquecer.
Estará lá sempre guardada a referência de que ano não queremos ver repetido, ou que se faça um remake, ou uma adaptação.
A saudade é o mais difícil de todos os sentimentos que conheço.
A saudade é tão mais difícil quanto mais dura, mais cortante, mais áspera, mais dolorosa, mais triste, mais...
A saudade só é fácil no seu estado mais puro, e de pouca duração, porque são saudades que têm um fim marcado.
Não há uma definição possível para saudade, porque cada um de nós as tem de forma distinta, complexo, com cheiros, com imagens, com sons, com palavras, com olhares, com gritos, com gestos, toques, sorrisos...
Saudade é saudade, é verdade e é reconhecimento, é amor e é sofrimento, é dor e alegria, é choro e medo, é ter do que não se tem e sentir falta de tê-lo também.
Tenho saudades de ter saudades que acabam daqui a não muito!
Gostava de ser mais como o outro da outra realidade.
Gostava de ter saudades das boas.
Gostava de gostar.
A saudade é o mais difícil de todos os sentimentos que conheço e também deve ser o mais difícil dos sentimentos que desconheço.
A saudade não é flor que se cheire, é flor que se sente!


24 de dezembro de 2011

Cara de quê?

Há os caras de parvo, de rato, de coelho, de cavalo, de rabo, de estúpido, atrasado mental, boi a olhar para um palácio, de palácio a olhar para o boi, de quem mente, de quem está a falar a verdade, triste, alegre, zangada, infeliz, felicidade, simpatia, malandro, há caras para tudo.
Cara de quem recebeu uma má notícia, cara de quem soube que ia ser pai, de quem viu um fantasma, de quem viu a morte, de quem viu o chefe "comer" a colega de trabalho na casa de banho do pessoal, de quem viu um porco a andar de bicicleta, de quem não dormiu bem, de quem dormiu de mais, cara de quem já fez merda, de quem está a preparar alguma de quem se lembrou de alguma coisa, de quem não está nem aí para o que lhe estão a dizer, de quem está farto de me ouvir, cara de frete, a quem todos lhe devem e ninguém lhe paga, de cu, de quem queria estar em todo o lado menos aqui, de quem sabe e não conta, de empregado de mesa, de porteiro de discoteca, de troll, de otário, de quem está f*d**o, de quem recebeu a carta mas ainda não a abriu, de quem acabou de ver algo inacreditável, de quem está preso, de quem está doente, de quem tá a precisar de alguma coisa, ou de quem tem um palminho de cara.
É como digo ele há caras para tudo, para todos os gostos, para todas as caras.
E que cara tem que não tem cara para ser absolutamente nada, a não ser aquilo que é, nada.
Há ainda outro tipo de pessoas. Aqueles que têm cara de qualquer coisa, e que poderiam perfeitamente o porteiro do prédio, o empregado de balcão do café de todas as manhãs, o maquinista da carruagem do Metro das 07h05, o taxista de ontem do Marquês até ao Areeiro, qualquer coisa.
E esses passam por tudo, mas também são aquele tipo de cara de que todos se lembram e num instante todos se esquecem.
São aquilo a que alguém um dia sabiamente apelidou de "o homem comum".
E o problema do "homem comum", é que os seus problemas são também eles, problemas comuns.
O Benfica perdeu, o café está horrível, o almoço caiu-me mal, preciso de uma mini, acabou-se o açúcar, tenho o carro na reserva, deixei a carteira no carro e não me apetece ir lá buscá-la, estou farto da minha mulher e das mariquices da sala e dos jantares de chacha, amanhã não me apetece ir trabalhar, estou farto do meu chefe, se pudesse...
É tudo isto e um pouco mais.
O que me leva a concluir numa racional soma de problemas comuns com as caras que há, que a maioria dos homens de Lisboa ostentam o cognome de fiéis "homens comuns".
Portanto, se me estás a ouvir e te queixas de algum mal, e fazes parte de algum deste tipo de caras, cuida-te porque és já um portador do síndroma do "homem comum" e no fundo estás condenado a lamentares-te da tua vida e de tudo o que te rodeia para o resto dos teus atormentados dias. Mas isso também não constitui qualquer problema para a tua alma, uma vez que nem sequer pensas na vida para a frente, só vês para trás, e só o que está lá atrás te interessa, mas olha rapaz, telefona se precisares, sabes que os amigos são para isto mesmo.
Isto sim é de amigo.
E sem fazer cara séria, simplesmente com a minha cara de parvo.
E está na cara que já vai longe a dissertação.
É dia de Natal, ou não?
Homem, faz o que de mais comum se faz, come o bacalhau, limpa a boca à mão, bebe mais um pouco, tanto não, tás louco?
Senta-te direito, chama os putos para se abrirem as prendas, que ainda queres ir ao café.
Para o ano há mais, vamos embora.

Não...é natal!

É natal. Escrevo em letra minúscula porque sim, porque o Natal passou a ser natal, porque o estúpido passou a ser banal, porque o ridículo passou a ser normal, porque o premiar obsceno do abrupto é aceitável e o sofrimento condenável, a felicidade é subjectiva e o bem estar é concreto!
De que serve ao homem o bem estar infeliz ou incompleto?
De que vale a busca incessante, se por vezes pode ser na aceitação do real está solução?
É assim tão necessário sermos verdadeiramente felizes?
Quanto a vale a felicidade?
Quantas felicidades existem?
Daqui a pouco estou a perguntar quem sou e de onde vim e para onde vou, não que a mim não me enganam mais.
Por isso é que enquanto me apetecer vou escrever natal, com "letra pequena" só porque quero e por acho que chamar Natal ao natal é como chamar país a Portugal.
Estamos inundados de anúncios amigos do fim do mundo, do terror económico, da crise financeira, do fim do euro, da guerra, da política de responsabilidade, anúncios que nos aterrorizam por serem aos nossos olhos verdadeiros, como verdadeira é a vontade que temos de os fechar, para não vermos as coisas mais horríveis a que conseguimos aceder nos dias que hoje correm.
E a esses anúncios contrapõem-se os da vida eterna, da beleza incomparável, da robustez nas curvas, das praias mais fabulosas, dos voos mais baratos, das noites em pousadas de portugal, (lá está, propositadamente escrito com "letra pequena", porque isto de país tem pouco) tudo, há de tudo, para todos, e não há dinheiro, nem subsídios de natal, e para o ano vão os de férias, e aumentam as taxas moderadoras, e fazem greve os maquinistas, e as pessoas não têm dinheiro para as "prendas", e os preços aumentam, e aumenta o tabaco, e assim se vai indo.
Há semanas atrás falava com uma amiga que estava cheia de planos para o Natal (agora escrito com maiúscula por ser uma clara referência à época que se festeja na terra dela), importa dizer que a rapariga é finlandesa, da Finlândia (lá está, maiúscula, estamos a falar de um país). E às tantas começamos a falar de salários e dizia ela, eu sei que vocês aí ganham muito mal, tens de sair daí, e eu dizia, "mas achas que nós aqui ganhamos quanto, quanto achas que eu ganho?" e ela responde, eu a seguir digo-lhe o valor real e ela fica parva, e diz-me que lá, na Terra (segue a mesma lógica aplicada ao país de que se esta a falar) ninguém ganham menos de 3 vezes isso, a média geral são 3 vezes e meia).
E eu fui só ter um AVC alí à cozinha, e voltei.
E portanto ela comprou montanhas de presentes para a pequena família que tem, comprou um vestido para o Natal da Terra dela, é na Finlândia e por isso o Pai Natal não tem de fazer um desvio assim tão grande, até pode ir pela Nacional
Já aqui, o natal é outro.
Quase me sinto a ter vergonha de o celebrar, quase me sinto a ter vontade de sentir vontade que chegue o Natal, quase que gostava de gostar do Natal, mas não posso gostar do natal assim, não depois de tudo.
Há um duelo de forças nesta altura do ano.
Um duelo voraz de consciências que se interpelam pelo olhar, que esbanjam, gastam, uns por opção, outros por obrigação, outros porque é Natal, outros porque podem, porque querem, porque adoram, porque não deram nada todo o ano e esperaram pelo Natal, e as crianças, depois há isso, as crianças.
Aí reside o conflito, reside o centro de tudo isto.
O natal já não é só das crianças, é para as crianças, e para os pais gastarem o que têm e não têm, e depois chega a dia 26 e acabou, está tudo de volta na manhã seguinte.
É isto o natal. É isto o Natal? Está transformado numa rica coisa, está.
Quem o viu e quem o vê, como o vi e como o vejo, nem sei bem se o vejo, ou se o olho com desdém, não sei bem se é natal,  nem sei sequer se ele vem. E se vem? O que tem?
É suposto ele resolver alguma coisa? É suposto ter algum significado? Ou é um polvilho de alegria contada, que devolve à rua o lixo e à alma o anestésico de um par de dias, ou não.
Um pouco como se estivéssemos a polvilhar canela num pastel de nata.
Quero lá saber do natal.
Quero é saber da minha vida.
É nisto que estamos é isto que interessa hoje em dia.
Como pode haver unidade, se tudo nos separa e tudo se separa, e junta-se o que se deve e não se deve, o que deve com o que não deve, é tudo tão breve, e a brandura dos olhos, é a brandura da alma, o espelho do nada que não passa, e do passo que não se dá.
Talvez o natal seja de facto o pré balanço do final do ano, o primeiro momento em que se pára diante da família e se recorda em silêncio, quem recorda, o que aconteceu durante todo o ano. E este não foi o mais famoso, para muita, tanta gente, gente a mais.
A vida tem coisas curiosas, minutos engraçados, horas com piada, tardes de sonho, noites memoráveis, a vida tem tudo, de tudo, para muitos e não para todos, por certo, não para todos.
Afina, aponta, fixa, ergue, segue, persegue, morde, agarra, puxa, insiste, não desiste, aguenta, mais força, aperta, é teu, não larga, cuida, trata, protege, educa, mostra, fala, conta, diz, ri, chora, canta, berra, grita, dorme, é vida, é tua, agarra-a, continua, não larga.
O natal para o ano volta carismático e agregador como sempre.
A mesma disposição, a mesma conversa de ocasião, o mesmo delito de opinião, o cinismo, as vozes na cabeça, os olhares de soslaio, o sofrimento, a ausência, a tristeza, a estranheza, os núcleos, a família, e a outra parte dela, as memórias e a fuga para a janela.
As lembranças e...
É natal outra vez, diz-se assim em português.
É natural por ventura, e o que arde cura, como a ferida aberta que fica escura, que o olhar da ternura se perca na noite escura?
Tudo é natural. É natal. E no Carnaval também, ninguém leva a mal, é um festival.
O que terá feito Jesus nas outros 32 noites de natal que testemunhou?
Será que ele saía à noite depois de abrir os presentes?
Bebia uns copos com os amigos?
Ou será que era um menino certinho, e ficava em casa a ajudar a santa da mãe a lavar a loiça, e ia cuidar do presépio, que o deles era daqueles mesmo verdadeiro, com animais e tudo.. E todos os anos deviam ir lá por uma velinha para agradecer ao Senhor o filho que Ele deu ao mundo. José devia ir de trombas. A pensar, agora tenho de ir agradecer ao filho do, com todo o respeito, Outro? Pensaria ele, mas sempre de sorriso na cara, o cínico, cobardolas, que nem soube defender o filho e deixava-o andar de rabo de cavalo em casa, para não mergulhar os cabelos na sopa.
Jesus devia ser fresco, devia. 
Mãe vou sair.
Vais onde filho?
Vou ali pregar aquela aldeia ali ao lado.
O pai era carpinteiro. A mãe dizia, ta bem filho, mas tem cuidado não te aleijes, e pronto, era aquilo de vez em quando.
E depois voltava dias depois, sujo, a cheirar mal e dizia, olá Mãe.
E Maria: Filho onde estavas? A pregar Mãe. A baptizar pessoas. O normal.
E eis que surge a pergunta da noite.
E tentar enquadrar Jesus numa família da classe média portuguesa dos dias de hoje?
Sim, classe média.
Jesus teria o passe da Carris, tinha de ter, sub-23 com sorte, sabia as estações de Metro de cor e salteado, de todas as linhas, e sabia os autocarros, porque a mãe lhe dera um mapa.
Andava a pé.
Teria roupa de marca, tinha de ser igual aos outros, senão davam logo por ele e era um ver se te havias.
Na escola ainda levou umas quantas na cara, quando se pôs uma vez a dizer que era o Messias. E tudo a gozar com ele na sala, és o Messias és, tá calado ó Jisas
E isto durou até o professor o expulsar. E ele foi com essa conversa com o pessoal do 12º ano que tinha faltado às aulas, a dizer que era o Salvador, o Messias, o filho de Deus, levou tanta bofetada naquela cara, que parecia um pão de Mafra, não voltou cá a meter-se com conversas.
Jesus haveria ter um Iphone.
E que músicas iria ter?
Com a quantidade de músicas que foram feitas em sua honra, tinha aquilo bem composto.
Possivelmente iria também gostar de coisas variadas, e ia comer ao McDonalds e à roulotte, essa instituição portuguesa.
Na vida de adulto de hoje em dia, onde é que o rapaz ia arranjar tempo para andar a pregar por aí?
E a sociedade estaria preparada para um pregador em versão super herói?
Que durante o dia é Jesus, não o treinador do Benfica, o verdadeiro, e à noite, ou quando tem um tempinho é o Messias Salvador?
Levanto desde já as minhas reservas.
No natal é que eu queria ver o que é que ele fazia.
Como seria o natal de Jesus nos dias de hoje?
Não é irritação, indignação, ódio, tristeza, frustração, revolta. É simplesmente, um não é.
Para mim não é Natal, mas sim natal, eu é que sei, eu é que escrevo.