8 de dezembro de 2011

Futuro e Princesas

04h00 da manhã. 
Candeeiro aceso, sombras na parede, olhos ainda abertos, pensamento tão desperto, acalentando o meu dançar.
Vagueia-se-me a alma pelas ruas da cidade, em busca das respostas que tardo em não querer ignorar.
Está mais do que na hora, é mais do que tempo de seguires rumo à primavera (escrito com letra "pequena", já a caminho do novo (des) acordo ortográfico) como cantou tão bem Manuel Cruz.
Estou a meio de um bloqueio.. penso.. e não escrevo.. sinto e não devo.. procuro e não encontro.. o que vejo.. é o que sei há tanto.. Mas conformo-me e derroto o ímpeto surreal, não sinto mais do que aquilo que sentia, não desespero, e aí deixou de estar o mal..
Ou estará aí mesmo a solução primordial?
O que faz de um homem, esse mesmo homem?
É a capacidade de superação, re-invenção, acomodação e de aprendizagem, ou é a capacidade de luta, regeneração e crescimento que advém da quantidade de sofrimento que consegue encaixar?
Ser-se humano nos dias que atravessamos, não é de todo uma tarefa simples e de fácil concretização.
Viver está difícil, crescer parece complicado, e o futuro é aos nossos (jovens moços) olhos uma missão cada vez mais imprevisível e de trajecto inobservável.
Mas aí reside também a natureza bela do incerto.
De que vale saber o que vamos encontrar? De que nos vale conhecermos os desígnios do Divino que nos esperam?
De nada.
Penso até que nos atreveríamos a apressá-los para que nos pudéssemos contentar mais depressa com o que é nosso por direito, para que de forma tão egoísta nos conseguíssemos satisfazer o mais rapidamente possível.
Quem pensa em si e não no próximo, quer para si tudo e deixa para o pobre coitado do vizinho, aquilo que não consegue com os olhos alcançar.
Os olhos comem, e onde os olhos chegam o homem quer tocar!
Nada contra.
Mas o futuro, esse figurado espaço temporal que a ninguém assiste o poder do controlo, só tem a beleza que tem porque é desconhecido, porque é distante, porque está envolto numa cortina de neblina densa, e ao mesmo tempo enigmática e sedutora, que permite um vaguear dos pensamentos idílicos, em direcção ao sonho e ao desejo.
Queremos o futuro na mão ou os sonhos esmagados no chão?
Nada disso.
Quero é viver!
Já dizia Voltaire: "Não podemos querer o que desconhecemos."
Como tal, aspira ao que queres ser, sem nunca deixares de ser aquilo que és.
Conheço alguém com nome de princesa, sim, porque até para se ser princesa é necessário ter um nome à altura.
É uma princesa de verdade, mas dos tempos modernos, dos tempos de luta, de crença, de força, de muita força. de vestidos, ganchos e bandeletes, de brincos, anéis e pochetes, mas sobretudo com alma de guerreira, com alma de quem tudo vence, tudo dobra e tudo sente.
Ana.
Olhos em ti, pelo exemplo que doas ao mundo.
Olhos no alto, porque és do tamanho do que fazes e representas e nunca do tamanho da tua altura, olhos em ti, porque o que tu sabes, poucos sabem.
Olhos em ti, porque a vida é bem mais do que a estupidez diária dos que passam por ela, sem a viver de verdade.
Como consegues ser princesa e cavaleira ao mesmo tempo?
Como consegues gerir e comandar, sorrir e encantar?
Não sei como o fazes, mas o que é certo, é que mesmo não aparecendo em revistas, em fotografias ou entrevistas.. é enorme o espaço que conquistas.
És uma pessoa de verdade, nobre por direito, e grande na dimensão real da tua pessoa.
Que orgulho eu tenho por ser amigo de uma princesa.
Contarei isto aos meus, quando um dia os tiver.
Aprendo ao passar por pessoas assim, ao fazer parte do mundo de alguém tão grande, também eu me engrandeço e me torno melhor, maior e mais forte, mais denso e mais conciso, obrigado, muito obrigado.




5 de dezembro de 2011

É para se ver... com os olhos!

Como devolver ao homem aquilo que mais falta lhe faz?
O que me faz mais falta a mim, é diferente do que te faz mais falta a ti, com toda a certeza.
Mas centremo-nos no que faz mais falta ao homem.
Quanto a mim, humilde escriba com aspirações ainda incertas nesta vida, que não a de ser apenas mais uma simples e esforçada formiga no carreiro, aquilo que mais falta faz ao homem, é sem dúvida o seu pensar livre, o seu articular maduro de ideias, que tanto podem ser simples derivações de caóticos devaneios, como podem ser exemplos puros e cristalinos de ambições e desejos bem expressos e concretos.
Perder essa capacidade, por forças exteriores à própria força de viver, é sem dúvida um tormento inqualificável e indescritível, como igualmente é indescritível a beleza da aurora, ou do sorriso de quem se ama.
Mas há o oposto, na beleza do momento em que sentimos que recuperamos essa mesma força, em que sorriem os olhos, se franzem as sobrancelhas, se rasga o sorriso e percebemos que estamos vivos, de boa saúde, e que conseguimos articular vocábulos e construir frases na mente, à velocidade de voos picados de aves de rapina, com a tenacidade furiosa de um sorriso de uma hiena, ou simplesmente com a simplicidade e despreocupação de uma brincadeira de criança.
Pensar é estar doente dos olhos dizia o senhor Pessoa,. Lamento mas tenho de discordar, que é para isso que servem as trocas de argumentos e é a conversar que nos entendemos, certo?
Ora, pensar é algo a que os próprios olhos estão, felizmente, obrigados, pois a derivação da informação que é recolhida pelo sentido superior da visão, permite a reflexão, a construção, a imaginação e a levitação das ideias que se cozinham e se transformam em conceitos, em normas, em máximas, em verdades.
Mistificamos tantas vezes as imagens que temos, ligadas aos sentimentos que a elas associamos, que nos esquecemos tantas vezes que o pensamento depende da imagética, depende da observação, ver para crer, como S. Tomé, e esta é uma expressão milenar e que não apareceu apenas porque o senhor Tomé tinha uma visão perfeita, nunca tendo consultado qualquer espécie de oftalmologista, ou beneficiado de qualquer desconto associado à idade.
Mais do que nunca, os tempos que atravessamos, obrigam-nos a manter os olhos bem abertos, obrigam-nos a não deixar escapar nada, como se fôssemos assassinos letais e treinados, que esperam pacientemente no telhado de um prédio alto, muito alto, pelo alvo a abater, atentos a qualquer movimento, a quem cruza a esquina, a quantas vezes se abre a porta do prédio da frente, ao nº de carros que passam com o semáforo verde, quantos a laranja e quantos vão para lá do vermelho.
Temos de ser meticulosos e concentrados, sob pena de deixarmos passar oportunidades, muitas delas singulares, que nos possam mostrar que o caminho se faz pela estrada paralela aquela em que seguimos, e que não vimos o desvio para a mesma, porque íamos a pensar na chamada "morte da bezerra".
Meus caros, é de olhares que se constrói o mundo, é de mundos que se constrói a passagem fugaz pela vida, que de eterna nada tem.
Cada dia que passa é um dia a menos que temos.
Agora deixem-se andar de palas nas trombas, que é para isso que aqui andam é, para verem a vida passar-vos ao lado, seus idiotas.
Senhor Pessoa, uma vez mais perdoe-me a ousadia de ter discordado de si, ou melhor do Senhor Caeiro, que é muito simpático, mas também ele tem direito a dizer uns disparates de quando em vez, e nunca de vez em quando.
Ora, é isto mesmo.

3 de dezembro de 2011

Ser para alguém

Não poucas vezes nos pedem, nos exigem, quase que nos obrigam a que sejamos mais do que podemos ser, que estejamos disponíveis e capazes de dar mais, bem mais, do que aquilo que na verdade conseguimos ou estamos preparados para dar.
E para quê? Porquê? Com que fim? Com que propósito?
Por vezes, não estamos, não somos capazes, não nos é possível, não queremos, não podemos, não fazemos a mínima ideia de como é possível, ser mais, maior, melhor, diferente, ter mais força, mais vida, mais alma.
Regra geral quem o faz, tem bom fundo, tem boa vontade, tem acima de tudo vontade.
Mas, por favor, há dias em que a boa vontade se transforma numa cruel e frívola imposição, em ordem ditatorial malévola, mesmo que de forma inconsciente, e não é isso que se espera, nem tão pouco é isso que se tolera, em mais um inverno que caminha alegre e gelado rumo à primavera.
Diz quem vive, que a vida é um bem, um tesouro que se tem, e que nada de mais adorável existe, do que a incerteza do amanhã, do que acordar sem sequer imaginar, como vai desenrolar-se o período de várias horas que temos pela frente, e não sabemos de todo, o que vamos pensar quando nos estivermos a deitar.
A vida é para ser vivida à velocidade exigida, mas na dose bem medida, de quem sabe o que precisa para a sua própria existência.
Ao que chegamos quando o opinismo desenfreado, e o ímpeto desmesurado se tornam uma prática socialmente aceite, e quando aceite é o facto de qualquer pessoa se achar no direito de nos dizer o que devemos ou não fazer?!
Não sou mais nem menos, sou eu.
Gosto de gostar de quem sou, e quero gostar sempre.
Mas por vezes não gostar também faz parte, não querer também é arte, e não vejo que desça ao mundo grande mal por assim ser, vejo acima de tudo, que de tudo isto se faz a palavra crescer.
O homem faz-se das missões a que se propõe, e serão sempre da sua mais profunda responsabilidade os princípios adjacentes às mesmas.
Quero ser e serei um missionário, na real medida em que a missão me confere uma dose incomparável de felicidade e realização pessoal, que não conseguiria buscar em parte alguma.
Prometer é belo, cumprir é divino, torno-me mais a cada uma que cumpro, quero ser mais em cada uma que escolho.
Missão - Incumbência, encargo e em sentido figurado é uma função nobre a cumprir.
Nobre é o missionário e o propósito a que se propõe. Nobre serei então, numa terra sem Reis, rainhas, príncipes despóticos e princesas a cavalo, mas com pessoas de verdade, que ascendem aos meus olhos a títulos tão maiores do que estes.
São contos os que escrevo, perdidos num imaginário tão pessoal e próprio que me fazem acreditar.
E no acreditar diz que está o ganho, e no acreditar digo que está o sentido mais puritano do existencialismo mundano.
Se deixar de acreditar, deixarei de existir, tal como o poeta que afirmou que deixar de existir seria o deixar de sentir.
Deixarei tudo pela crença, mas nunca deixarei de me sentir na diferença que pauta aquilo que creio que sou.