5 de dezembro de 2011

É para se ver... com os olhos!

Como devolver ao homem aquilo que mais falta lhe faz?
O que me faz mais falta a mim, é diferente do que te faz mais falta a ti, com toda a certeza.
Mas centremo-nos no que faz mais falta ao homem.
Quanto a mim, humilde escriba com aspirações ainda incertas nesta vida, que não a de ser apenas mais uma simples e esforçada formiga no carreiro, aquilo que mais falta faz ao homem, é sem dúvida o seu pensar livre, o seu articular maduro de ideias, que tanto podem ser simples derivações de caóticos devaneios, como podem ser exemplos puros e cristalinos de ambições e desejos bem expressos e concretos.
Perder essa capacidade, por forças exteriores à própria força de viver, é sem dúvida um tormento inqualificável e indescritível, como igualmente é indescritível a beleza da aurora, ou do sorriso de quem se ama.
Mas há o oposto, na beleza do momento em que sentimos que recuperamos essa mesma força, em que sorriem os olhos, se franzem as sobrancelhas, se rasga o sorriso e percebemos que estamos vivos, de boa saúde, e que conseguimos articular vocábulos e construir frases na mente, à velocidade de voos picados de aves de rapina, com a tenacidade furiosa de um sorriso de uma hiena, ou simplesmente com a simplicidade e despreocupação de uma brincadeira de criança.
Pensar é estar doente dos olhos dizia o senhor Pessoa,. Lamento mas tenho de discordar, que é para isso que servem as trocas de argumentos e é a conversar que nos entendemos, certo?
Ora, pensar é algo a que os próprios olhos estão, felizmente, obrigados, pois a derivação da informação que é recolhida pelo sentido superior da visão, permite a reflexão, a construção, a imaginação e a levitação das ideias que se cozinham e se transformam em conceitos, em normas, em máximas, em verdades.
Mistificamos tantas vezes as imagens que temos, ligadas aos sentimentos que a elas associamos, que nos esquecemos tantas vezes que o pensamento depende da imagética, depende da observação, ver para crer, como S. Tomé, e esta é uma expressão milenar e que não apareceu apenas porque o senhor Tomé tinha uma visão perfeita, nunca tendo consultado qualquer espécie de oftalmologista, ou beneficiado de qualquer desconto associado à idade.
Mais do que nunca, os tempos que atravessamos, obrigam-nos a manter os olhos bem abertos, obrigam-nos a não deixar escapar nada, como se fôssemos assassinos letais e treinados, que esperam pacientemente no telhado de um prédio alto, muito alto, pelo alvo a abater, atentos a qualquer movimento, a quem cruza a esquina, a quantas vezes se abre a porta do prédio da frente, ao nº de carros que passam com o semáforo verde, quantos a laranja e quantos vão para lá do vermelho.
Temos de ser meticulosos e concentrados, sob pena de deixarmos passar oportunidades, muitas delas singulares, que nos possam mostrar que o caminho se faz pela estrada paralela aquela em que seguimos, e que não vimos o desvio para a mesma, porque íamos a pensar na chamada "morte da bezerra".
Meus caros, é de olhares que se constrói o mundo, é de mundos que se constrói a passagem fugaz pela vida, que de eterna nada tem.
Cada dia que passa é um dia a menos que temos.
Agora deixem-se andar de palas nas trombas, que é para isso que aqui andam é, para verem a vida passar-vos ao lado, seus idiotas.
Senhor Pessoa, uma vez mais perdoe-me a ousadia de ter discordado de si, ou melhor do Senhor Caeiro, que é muito simpático, mas também ele tem direito a dizer uns disparates de quando em vez, e nunca de vez em quando.
Ora, é isto mesmo.

3 de dezembro de 2011

Ser para alguém

Não poucas vezes nos pedem, nos exigem, quase que nos obrigam a que sejamos mais do que podemos ser, que estejamos disponíveis e capazes de dar mais, bem mais, do que aquilo que na verdade conseguimos ou estamos preparados para dar.
E para quê? Porquê? Com que fim? Com que propósito?
Por vezes, não estamos, não somos capazes, não nos é possível, não queremos, não podemos, não fazemos a mínima ideia de como é possível, ser mais, maior, melhor, diferente, ter mais força, mais vida, mais alma.
Regra geral quem o faz, tem bom fundo, tem boa vontade, tem acima de tudo vontade.
Mas, por favor, há dias em que a boa vontade se transforma numa cruel e frívola imposição, em ordem ditatorial malévola, mesmo que de forma inconsciente, e não é isso que se espera, nem tão pouco é isso que se tolera, em mais um inverno que caminha alegre e gelado rumo à primavera.
Diz quem vive, que a vida é um bem, um tesouro que se tem, e que nada de mais adorável existe, do que a incerteza do amanhã, do que acordar sem sequer imaginar, como vai desenrolar-se o período de várias horas que temos pela frente, e não sabemos de todo, o que vamos pensar quando nos estivermos a deitar.
A vida é para ser vivida à velocidade exigida, mas na dose bem medida, de quem sabe o que precisa para a sua própria existência.
Ao que chegamos quando o opinismo desenfreado, e o ímpeto desmesurado se tornam uma prática socialmente aceite, e quando aceite é o facto de qualquer pessoa se achar no direito de nos dizer o que devemos ou não fazer?!
Não sou mais nem menos, sou eu.
Gosto de gostar de quem sou, e quero gostar sempre.
Mas por vezes não gostar também faz parte, não querer também é arte, e não vejo que desça ao mundo grande mal por assim ser, vejo acima de tudo, que de tudo isto se faz a palavra crescer.
O homem faz-se das missões a que se propõe, e serão sempre da sua mais profunda responsabilidade os princípios adjacentes às mesmas.
Quero ser e serei um missionário, na real medida em que a missão me confere uma dose incomparável de felicidade e realização pessoal, que não conseguiria buscar em parte alguma.
Prometer é belo, cumprir é divino, torno-me mais a cada uma que cumpro, quero ser mais em cada uma que escolho.
Missão - Incumbência, encargo e em sentido figurado é uma função nobre a cumprir.
Nobre é o missionário e o propósito a que se propõe. Nobre serei então, numa terra sem Reis, rainhas, príncipes despóticos e princesas a cavalo, mas com pessoas de verdade, que ascendem aos meus olhos a títulos tão maiores do que estes.
São contos os que escrevo, perdidos num imaginário tão pessoal e próprio que me fazem acreditar.
E no acreditar diz que está o ganho, e no acreditar digo que está o sentido mais puritano do existencialismo mundano.
Se deixar de acreditar, deixarei de existir, tal como o poeta que afirmou que deixar de existir seria o deixar de sentir.
Deixarei tudo pela crença, mas nunca deixarei de me sentir na diferença que pauta aquilo que creio que sou.

25 de novembro de 2011

Palavras, para quê?!

Passam-se e seguem-se.
Olhares de redoma, transcritos numa fonética imperceptível.
É normal, não sou de cá, e demoro a perceber o que dizem todos estes... habitantes do mundo que não conheço.
Tenho tempo.
Café? Não obrigado.
Chega-me um bolo e um sumo.
A manhã ainda é curta e o tempo não escasseia.
Meto a mão ao bolso e procuro a...
Aqui está, nunca saio de casa sem ti.
Chego a ter a sensação que nunca chego a sair de casa, e se saio, não me dou conta de onde parei e de mim me esqueci.
Sou quem sou e tu quem és?
Apresso-me e lembro-me que vou trabalhar.
Chego de cara fechada, e tu também, com um intervalo de cerca de dois sinais vermelhos, um acidente na faixa da direita e dois eléctricos cheios, tudo isto dá um total de aproximadamente dez minutos, mais coisa menos coisa, mais buzina menos buzina, mais trânsito na esquina, e a senhora de idade na passadeira, que segura com força a carteira.
Convergimos de maneira estranha mas em simultâneo observamos que é redondo o prisma torto do local onde nos sentamos.
Passam-se as horas, o trabalho preenche o vazio do esquecimento, mas não deixa de ser um tormento ter que te aturar.
No relógio está a constância perene da vida, que te informa, que a passos largos há mais um dia a passar, e tu, meu caro, tu que continuas sem saber como o dia vai acabar.
Parece pouco importada em conversar contigo, mas também é melhor assim, não terias grande coisa para lhe dizer, pois não? Na verdade, não terias nem sequer nenhum tipo de conversa aprazível para ter com ela.
Do tempo não sabes falar, de comida? Não sabes cozinhar. Da vida, não saberias sequer por onde começar.
O que estou para aqui a dizer? Sou suficientemente pessoa, para conseguir conversar com outra pessoa qualquer, até com ela...
Sou suficientemente alguém para poder dizer também aquilo que o mestre (Pessoa) disse:
"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?"
Posso até ter vergonha, posso até corar de lamento, dar a entender que sou fraco e não aguento, mas no fundo, sei que sim, que posso, que consigo dizê-lo assim, porque sei quem sou, e sei o que é feito de mim.
Tentarei de novo amanhã, conversar, porque para amar é preciso bem mais do que um atraso no trânsito, bem mais do que a senhora na passadeira que se agarra à carteira.
Conversar não, isso é bem mais simples, basta abrir a boca e seja o que a conversa quiser, seja homem, mas sobretudo, seja aquela mulher!
Conversamos tantas vezes, e tantas outras não o fazemos, limitamos a conversa à falta de assuntos porque não é conversa que queremos, nem para conversa que estamos.
É um jogo este, o paradigma de viver, e por isso assim eu escrevo, porque há tanta coisa para ver, e sobretudo há tanto para dizer.
Nas margens, de rios, de folhas soltas, de conversas, de olhares, de sons e cheiros, reside tantas vezes o oposto que se aproxima, o perto que se afasta e se torna irremediavelmente distante e longínquo, que nos remete para a lembrança.
Quando partimos e viramos costas ao centro, deixamos para trás tanta coisa, mas há algo que sempre me faz lá voltar, as palavras.
Essas ninguém te as tira, ninguém te as leva, são tuas, sob direito inalienável de propriedade, porquê?
Porque sim.
Porque o que é teu às tuas mãos vem parar, e as palavras, caem-te nas mãos como se de folhas das árvores se tratassem.
Não julgo os acontecimentos, julgo os momentos que levam às realidades congénitas que atravesso e, assim cresço, assim assimilo o que o real me reserva.

E assim, é bom poder dizer, que leva tempo a perceber, mas que quando chegas ao R/C da compreensão, e olhas o topo visto de baixo, sabes que o caminho é longo e arrebitado, mas que ao caminho estás interiormente ligado e vinculado, com ele fazes o teu compromisso, e ao mesmo, te manténs quase fiel.
Deixa-te ir, apodera-te dos fins-de-tarde, e adormece a teu lado as noites frias, que no mundo há sempre lugar para mais um sonho.