Não escrevo para os outros, não escrevo para que me leiam, não tenho a pretensão de ser comentado, discutido, apreciado. Não quer ser falado, observado e analisado.
Pouco me interessa o que pensem, o que achem ou considerem.
Não vou prestar sequer atenção ao que possam pensar que está por trás da minha relação com as palavras.
Escrevo porque quero, porque posso, porque tenho esse direito, porque me apetece, porque sei o que quero escrever, porque vou directo ao assunto da minha escrita e porque na verdade, acredito nas palavras que exponho aos olhos curiosos dos que lêem o que escrevo.
Porque é que alguém se dá ao trabalho de o fazer?
É uma pergunta que da minha parte ficará sem resposta, porque, não me diz respeito.
Protejo as mãos que vagueiam pelas teclas, neste novo mundo de escrita sem tinta, sem caneta, sem o calo no indicador, sem os rabiscos e rascunhos na folha que começa por ser cândida e alva como a manhã e acaba por ficar amachucada e esventrada como o coração que sofre aquela dor, a dor intensa de quem sente e sabe, de quem tem a certeza que conhece o amor.
Escrever é bem mais do que a definição que limita a arte.
Escrever é bem mais do que comunicar por meio da escrita, do que articular caracteres em "cacagrafias" sem sentido.
Escrever é perceber o que a mente processa.
Escrever é dizer bem e depressa.
Escrever é falar com a boca fechada.
Escrever é encontrar a forma desejada da expressão já cansada.
Escrever é tanto mais que a ambição de querer ser lido, comentado, discutido, falado, comedido, desregrado.
Escrevo, escrevi e escreverei.
Porquê?
Porque viver de outra forma é coisa que não sei.
11 de novembro de 2011
Acorda
Podia começar esta palhaçada bem ao estilo de uma adolescente atrasada mental, que começaria a noite com um singelo... "Querido diário, ou querido Blog."
Mas não. O que me faz hoje debitar letras atrás de letras, formando frases plenamente conscientes, são as sensações que emanam de percursos forçados, para os quais me dirijo.
A vida transforma-se a cada amanhecer, e em cada aurora empobrecida me ergo e suspiro por um novo recordar.
De nada te serve a memória, apenas para te massacrar e atormentar.
A saudade é inimiga da constância.
Na realidade não sei mais o que espera desta espera interminável, não sei mais o que pedir, o que querer, o que posso desejar, se é que esse direito me é sequer concedido.
Talvez me queixe em demasia, talvez me centre estupidamente no que em mim corre, mas se eu não o fizer, quem o fará?
Se não questionar os momentos, os acontecimentos, os simples rasgos de real que se apresentam diante dos meus olhos embaciados, quem o fará por mim?
Uma e uma só resposta, uma e uma só conclusão. Ninguém. Porque ninguém tem de o fazer.
Existem caminhos destinados à solidão do percurso, assim como existem estradas de sentido único, noites sem luar, rios que não chegam onde devem, e palavras que se perdem na distância que solitariamente percorrem.
E na incerteza do pensar que me acompanha, um e um só lugar me visita a mente.
Perco-me na fugaz recordação do dia em que disse não.
Perco-me na relação incerta do que sou com o que fui, do que sou com o quero ser, e lamento, lamento profundamente, mesmo sabendo que nada mais me resta a não ser apertar os gastos atacadores e caminhar rumo ao desconhecido que me aguarda como nos aguarda o estalajadeiro, como nos aguarda Deus na sua cadeira altiva e bem informada.
A simbiose entre o desejo e o sonho permite-nos o querer, permite-nos a luta titânica contra o fardo do crescer.
Cresce e cala a boca.
Cresce e deixa-te de merdas.
Cresce e torna-te melhor do que alguma vez sonhaste ser.
Se julgas que o lamento é o cálice que sacia os pobres de espírito, espera até veres o que bebem os que se julgam ricos no seu vulgar entender.
Vive o que te espera e não esperes pela vida meu bandalho.
Papalvo de um conclave reformista a que julgas pertencer.
Mais não és do que um aspirante a homem, que nem aspirante consegue ser.
E o que te faz não tirar os olhos do chão?
Levanta a cabeça que há mais ao alcance dos olhos do que aquilo que te seduz no alcatrão.
25 de setembro de 2011
Águas furtadas
Na minha rua são tantas, tão formosas, airosas e bem dispostas. Regadas a sol pela manhã e por luares de noite inteira.
Eu? Moro na cave. Mas tenho um belo hábito de morador de bairro lisboeta. Passar algum do pouco tempo que passo em casa, de portinhola escancarada.
Não poucas vezes que escuto os desejos dos transeuntes que encaixam fielmente ao que também por mim passa.
"Gostava tanto de viver numas águas furtadas."
Talvez a fixação por este espaços curtos, mas de vistas largas se baseiem tão exclusivamente nos livros que líamos em crianças, ou dos desenhos animados britânicos, mas o que é certo é que não deixam no entanto de ser espaços singelos e simpáticos, de encantos tamanhos que apaixonam quem com os olhos as namora.
Sonhar é tanto mais possível quanto impossível se torna não o fazer.
Sonhar é um acordar solarengo de um cheiro a café fresco.
É ouvir bom dia metro a metro, é sorrir de olhos fechados.
Sonhar é querer ter mais e ser maior, é ser quem és mas mais, é isso sim, por favor.
Num café bem cheio se desperta a cidade e se levantam as almas.
Dos sonhos poucos guardam, talvez nada tragam, mas de águas, de águas furtadas não se rouba não a ideia magistral de uma vista anormal.
É bom morar na cave e ver-vos de baixo, porque é com submissão que se admiram as belas obras, e com sede que se furta a vista às águas.
Tenho sede e durmo, mas ao alto hei-de chegar.
Invariável semelhança a minha com a da casa da vizinha, que me olha lá de cima e me pensa pequeno.
Sou tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura, disse isto a pessoa de Pessoa, que às pessoas ensinou, que mais não é o homem que um guardador de pensamentos, se não sonhas e os transformas, não me maces com os teus lamentos.
Vive homem, vive! Vive, que no acordar se ganha tanto e se arruma ao deitar, amanhã é de novo dia, águas furtadas? Sim pois, não custa nada sonhar.
Será que depois de bebidas, perdem o dom de encantar.
São águas como as outras, que tentam refrescar.
Sonha homem que ainda é cedo, não te queiras levantar.
Abro a janela, branca, de vidros meios foscos e divididos, meio simples no olhar, o que queres de mim Ó dia, deixa-me apenas acordar.
Eu? Moro na cave. Mas tenho um belo hábito de morador de bairro lisboeta. Passar algum do pouco tempo que passo em casa, de portinhola escancarada.
Não poucas vezes que escuto os desejos dos transeuntes que encaixam fielmente ao que também por mim passa.
"Gostava tanto de viver numas águas furtadas."
Talvez a fixação por este espaços curtos, mas de vistas largas se baseiem tão exclusivamente nos livros que líamos em crianças, ou dos desenhos animados britânicos, mas o que é certo é que não deixam no entanto de ser espaços singelos e simpáticos, de encantos tamanhos que apaixonam quem com os olhos as namora.
Sonhar é tanto mais possível quanto impossível se torna não o fazer.
Sonhar é um acordar solarengo de um cheiro a café fresco.
É ouvir bom dia metro a metro, é sorrir de olhos fechados.
Sonhar é querer ter mais e ser maior, é ser quem és mas mais, é isso sim, por favor.
Num café bem cheio se desperta a cidade e se levantam as almas.
Dos sonhos poucos guardam, talvez nada tragam, mas de águas, de águas furtadas não se rouba não a ideia magistral de uma vista anormal.
É bom morar na cave e ver-vos de baixo, porque é com submissão que se admiram as belas obras, e com sede que se furta a vista às águas.
Tenho sede e durmo, mas ao alto hei-de chegar.
Invariável semelhança a minha com a da casa da vizinha, que me olha lá de cima e me pensa pequeno.
Sou tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura, disse isto a pessoa de Pessoa, que às pessoas ensinou, que mais não é o homem que um guardador de pensamentos, se não sonhas e os transformas, não me maces com os teus lamentos.
Vive homem, vive! Vive, que no acordar se ganha tanto e se arruma ao deitar, amanhã é de novo dia, águas furtadas? Sim pois, não custa nada sonhar.
Será que depois de bebidas, perdem o dom de encantar.
São águas como as outras, que tentam refrescar.
Sonha homem que ainda é cedo, não te queiras levantar.
Abro a janela, branca, de vidros meios foscos e divididos, meio simples no olhar, o que queres de mim Ó dia, deixa-me apenas acordar.
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